A Melhor Mãe do Mundo (2025): Rompendo o Ciclo.
Sendo brutalmente honesta logo de cara: eu gostei de A Melhor Mãe do Mundo (2025). No entanto, não sei se foram as inúmeras pausas que precisei fazer no meio da sessão para resolver outras coisas, ou se a minha expectativa estava lá no teto, mas o fato é que a narrativa não chegou a me atingir como aquele drama arrebatador e totalmente transgressor que eu imaginava. Apesar disso, é um filme que vale muito a experiência.
A grande pergunta que fica martelando na mente após os créditos subirem é uma só: quantas violências diferentes conseguem atravessar o corpo de uma mulher que vive às margens da sociedade?
Como apontado em análises do Instituto Pensi e em artigos da Agência Brasil, a obra não se limita a expor a violência doméstica de forma gráfica; ela escancara a sobreposição de vulnerabilidades. É a falta de dinheiro, a ausência de rede de apoio e a invisibilidade institucional esmagando a protagonista de todos os lados. É a resistência diária de quem não tem o privilégio de teorizar sobre a própria dor, porque está muito ocupada tentando sobreviver a ela.
O momento que mais me deixou inquieta foi um diálogo dolorosamente real. Em uma cena, a prima da protagonista solta, com uma naturalidade assustadora, que todas aquelas violências são "normais". O argumento dela? Elas passam por isso hoje porque as mães delas também passaram a mesma coisa no passado.
É o retrato perfeito do trauma geracional. A violência, nesse contexto periférico e esquecido, se torna uma herança de família. Um rito de passagem macabro passado de mãe para filha, engolido a seco e aceito como o destino inevitável de quem nasceu mulher naquela realidade. É a legitimação do absurdo pelo simples fato de que "sempre foi assim".
"É preciso imaginar Sísifo feliz."
Pode não ter sido a experiência cinematográfica mais avassaladora do meu mês, mas A Melhor Mãe do Mundo entrega o que promete. Mostra que, muitas vezes, o maior ato de revolução de uma mulher marginalizada não é salvar o mundo inteiro, mas garantir que a próxima geração consiga respirar.
PS: Para além da atuação impecável de Shirley Cruz, o Seu Jorge está maravilhosamente horrível. Mais uma vez se provando multifacetado.
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