Vampiros Adolescentes
Este outro pensamento me permeia a um tempo.
Seriam vampiros apenas adolescentes?
Aah, venha sugar o calor
De dentro do meu sangue
Vermelho
Tão vivo, tão eterno
Veneno
(Doce Vampiro- Canção de Rita Lee e Roberto de Carvalho ‧ 1979)
Eu sei que esses chupadores de sangue trazem consigo representações lindas e que atravessam cenários histórios, adaptando-se a cada nova ansiedade humana.
Uma das leituras clássicas, por exemplo, é a do Conde como o arquétipo do aristocrata que "suga" a energia vital do proletariado — uma verdadeira luta de classes para crianças. Mas o vampirismo é quase elástico; ele já foi associado a tudo, desde o medo de pragas até fascinantes "pseudobiologias" que tentam explicar como um vírus transformaria a fisiologia humana. (aqui)
Eles escrevem diários, dão entrevistas, documentários, viajam de navio... mas a literatura muitas vezes os pinta como intelectuais centenários e superiores. Para mim, a conexão mais visceral reside em outro lugar: na adolescência.
As semelhanças estão aí, é só pegar.
Adolescentes estão em uma das fases mais malucas que o ser humano pode experiênciar. Assim como a transformação vampírica, a puberdade é uma "morte" da infância para o renascimento de algo desconhecido. A busca por pertencer (seja em um fã-clube ou em um castelo isolado) reflete a ânsia de encontrar um lugar no mundo. O isolamento e a introspecção deixam de ser apenas clichês góticos para se tornarem mecanismos de autopreservação e reavaliação de identidade.
As emoções estão a flor da pele: tudo é ao extremo e tudo parece ser o fim do mundo. Para um adolescente, um coração partido ou uma rejeição social arde tanto quanto o sol do meio-dia na pele de um Nosferatu. Além do romance evidente que, aqui, pode se traduzir como inspirações novas formando um caráter e uma personalidade.
Para além do estereótipo (as roupas escuras, o mau humor crônico e o hábito de trocar o dia pela noite), o vampirismo é a metáfora perfeita para o florescer de uma personalidade que, embora assustada, descobre-se dotada de novos e perigosos poderes.
Falando em Nosferatu, o corpo em constante mudança pode ser atribuído a uma quase monstruosidade. O monstro é aquele que habita as fronteiras. O adolescente não é mais criança, mas não é adulto; o vampiro não está morto, mas não está vivo.
Afinal, todos nós já fomos "infectados" por essa urgência de viver intensamente, como se tivéssemos todo o tempo do mundo e, ao mesmo tempo, como se cada noite pudesse ser a última. Se as semelhanças estão aí para quem quiser ver, é porque, no fundo, todo adolescente é um imortal em treinamento, tentando sobreviver ao nascer do sol de uma vida adulta que insiste em chegar.
Você se lembra de sua fase de vampiro?



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