A Fome que o Código não Sacia
"Tu vai querer dividir?"
(Diálogo inicial da música "Vou Investir em Você" de Puterrier, Mc Carol)
Normalmente não é assim que começo meus textos por aqui, mas o que me chama atenção nesse singelo diálogo é que: ele é proveniente de IA. A voz, o vídeo que geraram e jogaram no Tiktok... é um pedaço de IA como recurso artístico.
Existe algo inquietante no ar, uma espécie de névoa digital que altera nossa percepção do que é autêntico. Estamos testemunhando um fenômeno curioso: o criador começou a mimetizar a criatura. Não é apenas o uso da ferramenta, mas a absorção da estética, da lógica e até dos "glitches" da Inteligência Artificial como uma nova gramática cultural.
É um movimento que evoca, com uma precisão quase cirúrgica, a Antropofagia de Oswald de Andrade: o ato de devorar o "outro" para digeri-lo e transformá-lo em algo novo. Só que agora, o banquete não é mais a cultura europeia ou a tradição estrangeira; o prato principal é o código, a rede neural, o algoritmo.
Historicamente, a arte era um exercício de resistência contra a matéria. Pintores levavam anos para dominar o pigmento; materiais eram caros e o acesso era restrito. Ter uma obra era deter um fragmento de poder simbólico. Mesmo a fotografia, que democratizou o registro, ainda exigia o "olhar" e o domínio técnico do equipamento.
A IA rompeu essa última barragem. Ela transformou a criação em abundância instantânea e, consequentemente, em saturação. O problema contemporâneo não é a falta de imagens, mas o excesso de realidades que nunca existiram no mundo físico. É aqui que entra o gesto antropofágico: o humano olha para essa abundância fria, devora sua estética e tenta devolvê-la ao mundo com o peso da matéria.
Essa "digestão" do artificial pelo humano manifesta-se em diversas frentes:
Na Música (A voz sintetizada): Artistas como Holly Herndon, no álbum PROTO, não apenas usam IA, mas criam uma "criança digital" (Spawn) para aprender a cantar com eles. Há também o caso de Grimes, que liberou sua voz para ser "clonada" por fãs via IA, transformando sua identidade vocal em um bem comum, onde o humano agora precisa performar como a sua própria versão sintética para ser reconhecido.
No TikTok (A mímica do algoritmo): Vemos a ascensão de trends onde criadores imitam as temáticas de vídeos gerados por IA. São pessoas que se esforçam para trazer para o real objetos meralmente artificiais. É o humano performando o erro da máquina para validar sua presença na plataforma.
- Ms Shi & Mr He
- Chestnuuuuuts
- Trejayne
A proposta modernista era absorver o estrangeiro para criar o nacional. Hoje, absorvemos o artificial para reafirmar o orgânico, mesmo que de forma distorcida. O processo segue uma lógica de tensão constante:
O conceito da interligência artificial é algo com a execução perfeita e fria, abundante e sem muita presença; Já a resposta humana é uma adaptação imperfeita limitada materialmente e com uma presença massiva.
Talvez o ponto mais noir dessa história seja que o valor migrou da perfeição para a falha. Quando alguém tenta recriar no mundo real uma "comida de vidro" ou um cenário impossível gerado pelo Midjourney, o interesse não está no sucesso, mas no fracasso da tentativa. O açúcar queima, a estrutura cede, a gravidade se impõe.
A IA produz o ideal. O humano produz o real em confronto com o ideal. E é nesse choque que a arte sobrevive e, honestamente, se apresenta melhor.
Não podemos ignorar os custos dessa nova fronteira. Existem sombras éticas densas: o uso de dados sem consentimento (uma forma de "extração" em vez de troca), a pegada de carbono massiva dos servidores e a precarização do trabalho criativo.
Mas, para além da crítica estrutural, permanece a fome. Uma fome humana por forma e significado que a automação não consegue saciar. Mesmo quando a máquina entrega o resultado final perfeito, falta-lhe o processo (o ato de agir sobre o mundo e sentir a resistência da realidade).
O que estamos construindo é uma estética híbrida. A IA expande as fronteiras do que podemos imaginar, e o humano, em seu gesto de devoração, testa o que é possível realizar. É um diálogo tenso mas muitas vezes divertido.
A criatividade não desaparece, muda de direção, movida pela mesma necessidade ancestral: transformar o estranho em algo que possamos chamar de nosso. No fim, somos seres de carne tentando encontrar a alma dentro de uma sequência de zeros e uns.



Comentários
Postar um comentário