Saving Face (2004) e Marry My Dead Body (2022): Entre a Raiz e o Novo

"Nós temos tempo suficiente." — Saving Face (2004)

Este mês é, mais conhecidamente no mundinho gringo, o mês do orgulho. O famigerado Pride Month. E, sendo assim, decidi me aventurar um pouco mais no cinema que explora relacionamentos para além das amarras normativas.
Tenho garimpado algumas coisas no streaming, mas desta vez eu me impus uma regra de ouro inegociável: tem que ter final feliz. Só nessa brincadeira, já mutilei metade da minha lista e, de quebra, varri para fora a esmagadora maioria do catálogo que sobrevive nas mídias legais. O pessoal já sofre demais na vida real para ficar consumindo tragédia roteirizada.

Por uma dessas coincidências gostosas do destino (ou não), os enredos que mais fisgaram a minha atenção vieram do outro lado do mundo. E, olha, que experiência formidável!

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Marry My Dead Body (2022)

O primeiro que vi foi a comédia taiwanesa Marry My Dead Body. Eu sei que ele não foi tão amado pela crítica geral no Letterboxd, mas como quem vive de estrela é o céu, a opinião alheia não me interessa nem um pouco.


A Premissa: O policial Wu Ming-han, que é homofóbico e tem pavor de fantasmas, acidentalmente pega um envelope vermelho na rua (um método tradicional para atrair alguém para um casamento fantasma). Isso invoca o espírito de Mao Mao, um jovem gay que morreu num acidente de carro e cuja avó quer vê-lo casado. Para se livrar do encosto, o policial precisa resolver o assassinato do fantasma, enquanto se envolve em tramas de gangues, corrupção policial e possessões desastrosas.

Esse filme é, simultaneamente, estranho, gay e homofóbico. Ele é leve, engraçado e  (pasmem, senhores) tem um roteiro sem pontas soltas! As coisas se amarram de uma forma calma e intuitiva, mas que ainda assim consegue te surpreender no final. É a prova viva de que o trauma dos filmes massivos e ocos da Netflix tem cura.

O casal principal sustenta uma dinâmica interessantíssima, embalada por uma pegada cultural linda sobre ritos de passagem. É um filme que tem a rara e preciosa coragem de não se levar a sério o tempo todo.

Saving Face (2004)

Logo depois, caçando recomendações no falecido Twitter, esbarrei em Saving Face (ou Livrando a Cara, no Brasil). Mais uma vez, fui presenteada com um roteiro milimetricamente amarrado, entregando uma comédia romântica sáfica com pitadas de drama que é simplesmente linda.


A Premissa: Wil é uma promissora cirurgiã sino-americana de 28 anos, vivendo em Manhattan, que descobre ser lésbica e se apaixona por Vivian, uma bailarina. O caos se instaura quando a mãe de Wil, uma viúva extremamente tradicional, aparece grávida em seu apartamento após ser expulsa da comunidade conservadora no Queens por se recusar a revelar quem é o pai da criança.

O Limbo Entre o Ser e o Não Ser

Além de serem produções com roteiros muito bem construídos, acredito que ambos os filmes compartilham uma alma em comum, que pode ser perfeitamente sintetizada pela frase: "Nós temos tempo suficiente".
Nas duas obras, os personagens estão imersos em um limbo existencial (uma gangorra desconfortável entre ser e não ser).

Em Marry My Dead Body, essa transição é clara:
Ming-han: Profissionalmente, ele está fisicamente em outra delegacia, mas sua mente segue presa ao seu antigo caso. Pessoalmente, está naquele abismo ruidoso entre a negação de si e a aceitação.
Mao-Mao: Obviamente preso entre a vida e a morte (ou melhor, entre a morte e a reencarnação). Ele está morto, mas ainda fortemente ancorado aos sentimentos do passado. Chego a pensar que as "demandas" que ele impõe ao seu improvável marido são a forma idealizada que ele encontrou para causar no mundo a mudança que, em vida, não conseguiu. (Além do mais: existe ícone mais representativo do passado do que a figura do fantasma?)
O Pai de Mao-Mao: O sogro de Ming-han caminha tortuosamente entre o peso esmagador da culpa do passado e a tentativa de aceitação no presente.


Essa gangorra de mundos fica ainda mais palpável em Saving Face:
Wil: A cirurgiã está espremida entre a própria aceitação (o desejo de estar com Vivian) e o dever quase devoto de cuidar da mãe (uma figura que representa o apego às raízes que, muitas vezes, são dolorosas).
Ma (A Mãe): Ela vive a agonia de estar "fora" da expectativa da sua comunidade. Ironicamente, sua gravidez a coloca na exata mesma posição da filha: um indivíduo deslocado do padrão, mas que morre de medo de terminar sozinho por causa disso. Ela sofre tanto com a pressão externa (do pai e da sociedade) quanto com a internalizada. Arrisco dizer que a obsessão dela por novelas seja um refúgio focado na previsibilidade da trama e, quem sabe, uma tentativa de viver através da tela uma juventude livre que nunca teve.


Vivian: A bailarina está no meio do fogo cruzado entre o ballet clássico (a raiz, a tradição, a ida para Paris) e a dança moderna (o novo, a expressão pura). Assim como Ma, ela carrega o peso de uma figura paterna que exige o cumprimento de um roteiro que ela já não quer mais seguir.

No final das contas, Wil, Ma e Vivian são mulheres completamente diferentes, mas amarradas pelo mesmo enredo estrutural: estão todas equilibradas no fio da navalha entre a segurança das raízes e a adrenalina imprevisível do novo.

Meus amigos, que filmes lindos. Simples, muito bem executados, com personagens que sabem conversar e, acima de tudo, profundamente carinhosos com o espectador.

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