O Pálido Olho Azul (2022): uma zona cinzenta de injustiça

Há dias que parecem pedir um tipo muito específico de filme. O Pálido Olho Azul (2022) foi uma gostosa surpresa para um dia de clima ameno e mais fresco, daqueles em que a atmosfera cinzenta do lado de fora da janela combina perfeitamente com o que está sendo projetado na tela. A produção é linda, o plot é interessante e a atmosfera te puxa para dentro de uma névoa convidativa de uma forma estranha.

Mas preciso abrir o texto com uma honestidade brutal: nos primeiros 40 minutos de filme, eu passei o tempo todo torcendo para que os deuses queers fizessem o milagre do jovem poeta e do detetive terem um caso. A química melancólica estava ali, implorando para acontecer.


Fustrações minhas à parte, o thriller gótico baseado no romance de Louis Bayard nos joga na Academia Militar de West Point, em 1830. Acompanhamos o detetive aposentado Augustus Landor (Christian Bale) encarregado de investigar uma série de assassinatos com a ajuda de um jovem cadete excêntrico que o mundo viria a conhecer futuramente como Edgar Allan Poe (Harry Melling). Vi gente no Letterboxd dizendo que a produção seria infinitamente melhor nas mãos do Guillermo del Toro. Olha, respeito o Del Toro, mas acho que não é pra tanto não. O filme entrega exatamente o que se propõe.

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Como alguém que tem uma queda assumida por estéticas melancólicas, a fotografia cinzenta e o figurino impecável desse filme me ganharam de cara. Mas o verdadeiro trunfo está no contraste avassalador entre a rigidez institucional do exército (aquela amarra social clássica que exige que todo mundo opere no piloto automático da disciplina) e a mente caótica, romântica e profundamente melancólica de Poe.

Daria facilmente para puxar um paralelo sobre como o isolamento geográfico e o frio cortante daquele lugar funcionaram como a incubadora perfeita para moldar o próprio terror gótico americano. Poe extraía a sensação de desolação da própria frieza do ambiente que o cercava.

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Para além desse choque entre a farda e o poema, o roteiro nos força a questionar os limites da nossa própria moralidade. Até onde nós somos capazes de ir para nos sentirmos "justiçados"?

O filme nos apresenta duas respostas distintas para a mesma dor. De um lado, temos Lea, que recorre à bruxaria e a rituais para tentar se curar de seus enfermos. E vamos ser sinceras: ficar doente é uma droga. Se eu já perco completamente a cabeça por causa de uma simples dor de cabeça, imagina o que essa diva passou naquela época sem o menor suporte médico.


Mas o que me chama a atenção é quando o médico e pai de Lea, ao ser confrontado mais para o final, revela suas motivações, que eram algo raso como "ela é jovem, linda e tem potencial para casar com alguém bom". Ou seja, para eles, as motivações para a bruxaria nasceram porque o universo havia sido injusto com as expectativas sociais daquela moça. Como Lea não tinha um culpado físico para as suas dores, o mundo inteiro virou o seu culpado.

Do outro lado da moeda, temos as motivações do detetive Landor. O motor que move seus crimes é a injustiça de ter perdido a filha após o abuso brutal que ela sofreu. Diferente de Lea, o detetive não culpa o universo abstrato; ele sabe exatamente quem cometeu o crime contra sua filha. São dois casos de injustiça, duas situações onde figuras femininas são colocadas à prova e, é claro, duas formas completamente diferentes de resolver.

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No fim, a investigação é gostosa de acompanhar e o plot twist é genuinamente bom, mas o que fica flutuando na mente após os créditos subirem é o questionamento: quem ali realmente deveria ou não ter caçado justiça com as próprias mãos?

O roteiro nos joga em uma zona cinzenta desconfortável. Será que devemos ficar ao lado de um ou de outro? Nada ali fez sentido? Aqueles garotos abusadores mereceram ou não o fim que tiveram?

Muito além do texto redondo, da música cirúrgica e da fotografia, a verdadeira beleza de O Pálido Olho Azul está aí: no retrato de um ser humano visceralmente determinado, disposto a quebrar o mundo para aplacar a própria dor.



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