O Mal é Estético, Lucrativo e Tem Patrocínio.
Minha irmã, Beatriz, e eu já tínhamos assistido a Late Night with the Devil (2023), mas, por algum motivo, ela quis repetir a dose esses dias. Na primeira vez, eu acabei nem logando no Letterboxd, mas agora fiz questão de registrar: dei duas estrelas e meia, batendo na trave das três. É um filme bom, inegavelmente envolvente, mas longe de ser perfeito.
Só que hoje eu não quero me debruçar sobre os méritos técnicos da direção de arte ou do roteiro. Quero usar esse estúdio de TV amaldiçoado dos anos 1970 como um pretexto para destrinchar um mal muito mais contemporâneo e real: a nossa profunda banalização do mal.
Para quem não viu, a premissa é simples e perturbadora. Jack Delroy é o apresentador do Night Owls, um talk show noturno que briga por migalhas de audiência contra o gigante Johnny Carson. Desesperado por números, ele decide fazer um especial de Halloween trazendo, ao vivo, uma garota supostamente possuída por um demônio. O que o público não sabe é que o próprio apresentador, em suas visitas a um acampamento de figurões e elites (The Grove), já havia feito um pacto com o Diabo (sacrificando a própria esposa em troca de fama).
A banalização da dor alheia em troca de ponto no Ibope não é novidade. É impossível não lembrar do episódio dantesco envolvendo Rodrigo Faro após a morte do Gugu. Em meio a um choro copioso (e puramente ensaiado) em rede nacional, o apresentador, achando que as câmeras não estavam focadas nele, limpa as lágrimas e pergunta friamente para a produção: "Como é que tá a audiência?".
Isso me leva diretamente à epidemia das Bets e a como a internet engoliu esse formato televisivo de exploração. Se no filme o apresentador invoca um demônio no palco para manter seu status, na nossa realidade, as mesmas elites que frequentam "clubes do bolinha" às escuras — como o The Grove— são as que estão dispostas a regulamentar um gigantesco cassino a céu aberto no país.
Em Late Night with the Devil, o filme aponta uma solução até ingênua quando as coisas saem do controle: desligue a TV; Mas nós sabemos que o buraco é muito mais embaixo. Parar de consumir ou deixar de seguir influenciador picareta é uma parcela ínfima do que pode (e deve) ser feito. O problema é estrutural, legislativo e de classe.
Talvez o elemento mais irreal do filme não seja a garota levitando, a cabeça abrindo no meio do palco ou o capeta soltando larvas. A coisa mais puramente fictícia ali é a catarse de ver o apresentador recebendo exatamente o que ele "merecia". O roteiro pune Jack Delroy por sua ganância. Ele é encurralado e destruído pelo próprio espetáculo que criou.
Na vida real? Na vida real, a CPI das Bets terminou em muita fumaça e pouquíssima ação. Os influenciadores que venderam a paz de seus seguidores em troca de patrocínios milionários não sofreram absolutamente nada. Não houve possessão demoníaca no estúdio, nem viaturas de polícia cercando suas mansões para prender os culpados. Eles apenas gravaram um vídeo de pedido de desculpas mal iluminado e, na semana seguinte, continuaram por aí, seguindo suas vidas e lucrando com a próxima plataforma de azar que pagou o cachê.



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