O Crachá de Sen.

Dei todas as estrelas possíveis no Letterboxd para A Viagem de Chihiro (2001). Foram cinco, redondinhas, sem dó. Mas o coraçãozinho de favorito não foi clicado ao lado delas. Por quê? Porque absolutamente nada ainda conseguiu destronar aquele bruxo loiro e seu castelo animado. Ainda assim, é inegável: estamos diante de mais uma obra-prima. É um filme lindo, fofo, comovente. Maravilhoso do início ao fim, e não tenho uma vírgula a reclamar.

Mas para o texto não quero focar na fluidez da animação ou na estética deslumbrante dos espíritos. Quero falar sobre um detalhe burocrático, histórico e perverso da história: o peso de um nome.

Quando Chihiro vai pedir emprego na casa de banhos e Yubaba a contrata naquele famigerado regime PJ, sem carteira assinada e em condições altamente insalubres, a primeira coisa que a bruxa faz é confiscar o nome da garota de dez anos.

No contrato, Yubaba remove o segundo kanji de seu nome (千尋), rebatizando-a compulsoriamente como "Sen" (千). A regra imposta pela bruxa é terrível: se Chihiro esquecer seu nome verdadeiro, nunca mais conseguirá deixar o mundo espiritual. Ela pertencerá à empresa para sempre.

O que Yubaba faz no mundo dos espíritos não é apenas uma magia folclórica; é a exata mesma tática usada por sistemas de opressão no mundo real para desumanizar e controlar.


Quando mergulhamos na história das relações étnico-raciais, o processo de apagamento colonial é uma das primeiras violências que destrinchamos. Durante a escravidão, quando pessoas africanas eram sequestradas e trazidas à força para as Américas, a violência não começava apenas no trabalho compulsório; começava na destruição da identidade.


Para apagar quem aquelas pessoas eram, os colonizadores retiravam seus nomes originais — que carregavam a ancestralidade, a linhagem familiar e a geografia de seus povos — e impunham nomes ocidentais ou bíblicos. A desculpa cínica, muitas vezes, era para "facilitar a pronúncia" dos senhores ou como parte do processo de dominação da fé. Mas, na prática, o objetivo estrutural era rasgar a raiz. Mudar o nome era uma tática psicológica de posse: significava que a pessoa deixava de ser um indivíduo com história para se tornar propriedade de um senhor. Sem o seu nome, você é desvinculado de quem você foi. Fica muito mais fácil te convencer de que você é apenas a mão de obra que o sistema dita que você seja.


E o mais incômodo é perceber que essa dinâmica de apagar nomes sobrevive até hoje, apenas com uma roupagem corporativa e acadêmica. Estudantes e imigrantes asiáticos frequentemente adotam nomes ocidentais ao ingressarem em universidades ou mercados de trabalho em países de língua inglesa.

A justificativa de que é "difícil para os nativos pronunciarem" mascara uma pressão estrutural de assimilação. Adotar um nome inglês funciona como um mecanismo de sobrevivência para tentar driblar preconceitos inconscientes em processos seletivos ou evitar a exaustão diária de ter seu nome constantemente mutilado por falantes nativos que não se dão ao trabalho de aprender. É o indivíduo precisando se renomear, se podar e apagar uma parcela da própria cultura para que o dominador ocidental não tenha o mínimo esforço. É uma forma contemporânea de entregar seu nome à Yubaba para conseguir transitar no espaço e "livrar a cara".


Nomes não são apenas um conjunto aleatório de letras usado para chamar alguém para o jantar. Eles carregam poder. Um nome valida a existência de uma pessoa, honra suas origens e cimenta seu lugar no mundo. Quando alguém se recusa a pronunciar um nome corretamente, ou exige que ele seja encurtado para "ficar mais fácil", a mensagem silenciosa que se passa é: a sua identidade não vale o meu esforço.

Haku, o menino que ajuda Chihiro, esqueceu quem era porque o rio do qual ele era o espírito (o Rio Kohaku) foi aterrado e coberto por asfalto no mundo humano. Sem seu lugar e sem seu nome, ele se tornou apenas o capanga submisso da bruxa, esvaziado de propósito.


No fim das contas, a grande catarse de A Viagem de Chihiro não está apenas na fuga épica da casa de banhos, mas no resgate da memória. A salvação de Chihiro e de Haku depende exclusivamente de um ato de resistência monumental: lembrar como se chamam. Porque um nome não é apenas um crachá de identificação no seu emprego tóxico. Ele é a nossa principal âncora com a nossa humanidade, nossa história e nossa liberdade. E ninguém tem o direito de apagá-lo.

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