Monstros de Drywall e a Padronização como Verdadeiro Pesadelo.

 Ainda não terminei de espremer tudo o que o filme The Backrooms (2026) tem a oferecer. Como historiadora e uma assumida observadora das ruínas urbanas, a adaptação da A24 me deu um pano pra manga gigantesco sobre um tema que não sai da minha cabeça: a arquitetura hostil e a morte da individualidade.

Para dar um passo atrás e fazer jus à história, precisamos lembrar de onde essa estética do espaço liminar surgiu. Entre 2011 e 2018, uma fotografia bizarra de um escritório vazio circulou pela internet, até que em maio de 2019, um usuário do fórum paranormal /x/ do 4chan pediu que postassem imagens inquietantes. Foi ali que alguém batizou o espaço e criou a regra: se você "bugar" fora da realidade (fazer um noclip), acaba caindo nos Backrooms, um labirinto infinito com fedor de carpete velho, paredes amarelo monocromático e o zumbido enlouquecedor de luzes fluorescentes.

A internet, sendo a internet, transformou isso na maior creepypasta moderna, o que rendeu os curtas virais , jogos e, eventualmente, o filme. Mas o que realmente me pega é a origem física desse pesadelo.

Até pouco tempo atrás, ninguém sabia de onde diabos aquela foto tinha saído. Até que, em maio de 2024, uma comunidade de desocupados fascinantes no Discord conseguiu rastrear a imagem usando o Wayback Machine. O grande épico do terror da nossa geração era, pasmem, o registro da reforma de uma antiga loja de móveis no interior de Wisconsin. Era o segundo andar do prédio sendo convertido em uma filial da rede HobbyTown em 2003, um espaço sem janelas e com extensos danos de água (o que explica a lenda do cheiro de carpete úmido). Hoje, o lugar virou uma pista de corrida de carrinhos de controle remoto e o layout original desapareceu.

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É claro que essa bomba de desconforto absoluto só poderia ser norte-americana. Eu sou, declaradamente, uma das últimas fãs daquele país e sempre encontro uma brecha para criticá-los. Mas a estética dos Backrooms escancara um horror muito real e estrutural: a repetição de padrões para baratear a produção.

É o capitalismo engolindo a individualidade em prol da facilidade de reprodução. O filme Viveiro (Vivarium, de 2019) traduz isso brilhantemente com aquele mar infinito de casas idênticas em um subúrbio verde-menta. Não há fantasmas assombrando o casal protagonista; o monstro é a padronização estética e psicológica que esmaga qualquer resquício de personalidade.

Essa lógica não fica só na ficção. Há um sem-fim de vídeos de norte-americanos no TikTok reclamando da infraestrutura urbana de lá. Dias atrás, vi um rapaz mostrando um "ponto de ônibus" que era literalmente apenas um remendo de grama ao lado de uma rodovia expressa. Não há um abrigo, não há um poste, não há uma calçada, nem uma placa. O espaço não foi pensado para pessoas, foi pensado para o tráfego de capital e de máquinas.

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É nessas horas que eu olho pela janela e respiro aliviada. O Brasil é perfeito? Longe disso. Temos nossos próprios colapsos estruturais, mas, para o bem ou para o mal, as nossas cidades são andáveis.

Aqui, existe um mínimo de pensamento voltado para o pedestre, para a interação social e para a criatividade no meio do concreto. Há uma (mesmo que pequena) resistência quase àquelas casas caixotes, cinzas e tristes que o mercado imobiliário americano empurra goela abaixo da classe média.

A gente tenta manter a alma do lugar. Às vezes, essa resistência se manifesta nas pequenas coisas, como um cantor famoso construindo sua casa e batendo o pé para incluir um bom e velho alpendre, exatamente como ele via na infância no interior. É o desejo de ter uma varanda para sentar, tomar um café e ver a rua passar, e não ficar confinado em uma caixa de drywall climatizada.

Os Backrooms assustam porque, no fundo, eles não são uma dimensão paralela cheia de monstros. Eles são o projeto final de um sistema que quer padronizar e plastificar o mundo até que a gente não saiba mais quem somos ou de onde viemos.



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