Mississípi em Chamas (1988): Um país dentro de um país.
Sobre Mississípi em Chamas (1988), dirigido por Alan Parker, eu poderia escrever parágrafos intermináveis chovendo no molhado. Eu poderia me debruçar sobre a atuação impecável da dupla principal, sobre a hipocrisia do FBI, sobre a segregação racial escancarada ou entrar no infindável debate acadêmico sobre o que está ou não historicamente correto na tela.
Para quem não assistiu, o drama policial acompanha a investigação do desaparecimento de três jovens ativistas dos direitos civis (dois judeus brancos e um negro) em 1964. O FBI envia dois agentes diametralmente opostos: Alan Ward (Willem Dafoe), o jovem idealista apegado aos manuais da lei, e Rupert Anderson (Gene Hackman), um ex-xerife cínico que entende que a cartilha sulista exige abordagens mais... psicológicas e agressivas. Eles batem de frente com uma barreira de silêncio absoluta, onde a Ku Klux Klan opera com a bênção velada das autoridades, até que a esposa de um dos policiais quebra o pacto e revela onde os corpos estão.
Mas, sendo bem sincera, o que me fez pausar o filme e mudou completamente os rumos deste texto de opinião foi uma frase. Uma única, simples e assustadora frase dita por um dos policiais locais enquanto era interrogado por Anderson:
"Aqui não é os Estados Unidos, é o Mississípi."
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Como é possível que um nacionalismo tão profundo e adoecido caiba em uma frase tão curta?
Recorrendo à História, o nacionalismo, como ideia estruturada, ganhou força lá atrás, quando os Estados nacionais estavam sendo desenhados na Europa. Era preciso definir onde terminava a França e onde começava a Itália; era preciso criar símbolos, idiomas e fronteiras que fizessem pessoas completamente diferentes se identificarem sob um mesmo guarda-chuva. Como movimento (que, vale lembrar, não tem orientação ideológica fixa, podendo servir tanto à direita quanto à esquerda) , o nacionalismo busca promover e proteger os interesses internos de uma nação ou grupo étnico, garantindo sua autogovernação.
Mas milhares de anos e incontáveis conflitos depois, aquele pequeno condado no Mississípi nos entrega uma exemplificação terrível de como esse movimento mutou. O nacionalismo, que em tese nasceu para unir um país, ali desune dentro da própria união.
Para aqueles cidadãos racistas de 1964, o mundo é uma coisa, os Estados Unidos são outra bem distante, e o Mississípi é o seu próprio universo inviolável.
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O que vemos no filme é um nacionalismo em camadas. E o mais assustador é perceber que esse é um movimento contínuo e orgânico da humanidade. Os "iguais" se juntam, e depois filtram os "mais iguais", e depois os "ainda mais iguais"... num eterno e claustrofóbico movimento de identificação que exclui o resto do mundo.
Trazendo para a nossa realidade: aqui no Brasil, somos todos brasileiros. Mas a vivência de um sergipano não chega nem perto da vivência de um sulista. E, ainda assim, quem mora na capital de Santa Catarina não tem a mesma experiência de mundo de alguém que mora espremido na fronteira do estado.
Essas divisões regionais e culturais são naturais. Fazem parte da nossa formação geográfica. Mas a pergunta que o filme joga na nossa cara é: até que ponto isso é saudável? Até que ponto podemos nos fechar nas nossas próprias bolhas regionais e ideológicas antes de nos tornarmos tão cegos e hostis quanto o pessoal do Mississípi?
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Bolhas à parte, o filme é ótimo. Não tenho críticas agressivas para despejar em cima dele hoje. A representação da época, a fotografia de luz e sombra (que eu tanto amo), a atuação e o figurino entregam exatamente o que a história pede. Não sei se aqui há um caso de "salvador branco"... por mim, não me pareceu nada tão gritante.
A catarse final é maravilhosa. No fim das contas, a justiça pode até ser falha e os assassinos terem sido presos "apenas" por violação dos direitos civis devido às brechas estaduais, mas é sempre muito bom ver racista se fodendo.
Vale as duas horas do seu dia facilmente.



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