Crescer, Multiplicar e Flopar
Persuadida pelas infinitas ofertas do Mercado Livre, cometi o erro de assinar os quatro streamings de uma vez só por um único valor. A última vez que fiz algo semelhante foi há anos, e, honestamente, eu só queria ver o que estava rolando pelo maravilhoso (e superestimado) mundo da legalidade.
O resultado? Uma maratona de frustrações.
O resultado? Uma maratona de frustrações.
No Disney+, eu tentei começar a assistir um filme e simplesmente desisti nos primeiros vinte minutos. Ainda estou com a promessa de ver "Luca" dublado em italiano, mas a preguiça reina. Sendo muito sincera, por mim, não compensa a assinatura.
O Apple TV+ me fez passar raiva em níveis estratosféricos. A plataforma promete ter clássicos maravilhosos que estão na minha lista de pendências há milênios, mas, na prática (assim como absolutamente tudo que envolve a maçã), eles querem te vender os filmes à parte. Você paga a assinatura para ter o privilégio de pagar um aluguel.
A HBO Max até tem um pouco mais de conteúdo de peso, mas nada que eu já não conheça ou não tenha visto. É uma plataforma que virou puramente nostálgica para quem já acompanhava o mundo do cinema e da TV há anos.
Meu único respiro, ironicamente, parecia ser a Netflix. Sem precisar cavucar tanto, a interface te joga uns filmes um pouco diferentes dos demais. Mas foi exatamente aí que eu caí numa sequência tão desastrosa de filmes "originais" que me deu vontade de morder a minha própria testa.
Claro, a Netflix deve dar alguma visibilidade a cinemas de outros países e pontos de vista diferentes, talvez dando oportunidade e espaço para quem sempre quis produzir. Mas não nos enganemos: no fim do dia, não deixa de ser um tecno-feudalismo. É um mero aluguel de espaço digital, onde a sua obra só existe até o momento em que o algoritmo decide que você não serve mais.
• Os Desqueridos do Mês
Esse texto vai ficar longo, então vamos aos três culpados que me fizeram perder preciosas horas de vida:
In the Shadow of the Moon (2019):Um policial investiga mortes bizarras a cada 9 anos. Ele persegue a suspeita, a esposa morre no parto, e ele passa décadas obcecado. No fim, descobre que a assassina que viaja no tempo é a própria neta (Rya), tentando matar extremistas no passado para evitar uma guerra civil no futuro.Colors of Evil: Black (2026):O clássico "promotor chega na cidade pacata, criança some, ele descobre ligação com casos antigos, se junta com a promotora adjunta e desenterra os podres dos moradores". A sequência do polonês As Cores do Mal: Vermelho.The Wrath of God (2022):Um suspense argentino onde a protagonista, Luciana, vê a família inteira morrer e tem certeza de que é vingança do ex-chefe, o famoso (e enigmático) escritor Kloster, que ela processou por assédio.
Qual é o grande problema dessas obras? Todas (sem exceção) têm uma ideia inicial interessante e instigante. São premissas que chamam a atenção e enredos que, em mãos competentes, poderiam ser espetaculares.
Olha, tem um cara no TikTok, um gringo que é um hater absolutamente doente dos filmes da Netflix. Eu sempre achei uma bobagem esse nível de rancor, mas hoje serei obrigada a concordar com ele: os roteiros são invariavelmente fracos.
A narrativa, a construção dos diálogos, a forma como o filme se encaminha... é tudo ridículo. E é ridículo num nível que me dá a sensação de que o filme inteiro só existe porque os personagens se recusaram a conversar. Os roteiristas pegam uma resolução que seria imediata e simples, mas a ignoram completamente só para fazer o tempo de tela "render".
Quer um exemplo? Em In the Shadow of the Moon, a garota viajante do tempo (Rya) sabe exatamente tudo o que o detetive faria. Ela poderia, já no primeiro encontro em 1988, ter sentado e falado toda a história para ele. Mas não! Ela prefere passar décadas soltando uns alertas fracos e enigmáticos do tipo "não me segue". Ficou me lembrando a Dora Aventureira, que precisa repetir três vezes pro Raposo não roubar ela. É de uma preguiça narrativa atroz.
Aí fomos para Colors of Evil: Black. Talvez o mais "complexo" na teoria, porque até tem uma estrutura de investigação. Mas na prática? É tão genérico, tão "mais do mesmo", que não impacta em absolutamente nada. Não tem um pingo de ousadia. É o suprassumo do filme esquecível para deixar passando enquanto você dobra roupa.
Mas o que me tirou do eixo, o que me encheu de raiva e me fez abrir o notebook para digitar isso aqui, foi o hermano The Wrath of God. Eu simplesmente detestei todo mundo. Gente, pelo amor de Deus... O cara é vendido pelo filme inteiro como um escritor super famoso, intelectual, brilhante. Um mestre das palavras não conseguiria simplesmente abrir a boca e falar que estava a fim da moça? Um escritor não tem o domínio da comunicação básica? E mais: o sujeito passa os primeiros vinte minutos do filme vangloriando a esposa como se ela fosse uma divindade intocável, para logo em seguida tentar trair ela com a funcionária? É incoerente, é raso, é intragável.
Enfim. Fiquei com raiva dos roteiristas e, principalmente, fiquei com raiva de mim mesma por cair, mais uma vez, na arapuca do "Original Netflix".
Pode ser estadunidense com viagem no tempo, pode ser polonês com investigação criminal, pode ser argentino com drama psicológico. Não importa o lugar do mundo de onde a produção vem: sob a chancela desse tecno-feudalismo pasteurizado, o cinema ainda carece (e muito) de essência.



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