Cálculo mortal (2002) & Festim Diabólico (1948): A tensão invisível e o assassinato como união estável
Tomando banho, na manhã seguinte de ver o filme Cálculo Mortal (Murder by Numbers, de 2002), me surgiu uma lembrança repentina. Foi como se, no meio do vapor do chuveiro, a ficha finalmente caísse: esse filme não passa de uma recriação de Festim Diabólico (Rope, de 1948)!
Isso ficou martelando na minha cabeça porque as duas obras compartilham exatamente a mesma espinha dorsal narrativa, mas a executam de formas diametralmente opostas. O clássico de Alfred Hitchcock funciona com uma precisão cirúrgica. Já o thriller de 2002, protagonizado pela Sandra Bullock, derrapa.
Mas por quê?
No clássico de Hitchcock, a premissa é claustrofóbica. Dois jovens aristocratas e ex-alunos de uma faculdade de renome, Brandon e Phillip, estrangulam seu colega de classe, David, no próprio apartamento. O motivo? Não há vingança, não há dinheiro. Eles querem provar sua superioridade intelectual cometendo o "assassinato perfeito".
Depois de esconder o corpo em um baú de madeira no centro da sala, eles têm a ideia de dar um jantar para a família da vítima e para o seu antigo professor universitário, Rupert (James Stewart); usando o baú fúnebre como mesa de bufê para os convidados. O filme inteiro, gravado para parecer um único plano-sequência contínuo, foca na tensão crescente e nas pequenas inconsistências que o professor Rupert vai pescando ao longo da noite, até o momento fatídico em que o baú é aberto e a hipocrisia do discurso intelectual se espatifa. No final das contas, a obra escancara um debate moral pesadíssimo: os discursos de violência são corresponsáveis pelas ações violentas que eles mesmos inspiram?
Curiosamente (ou não), a página do Letterboxd no Instagram colocou Festim Diabólico numa lista temática intitulada "Be gay, do crime". E, convenhamos, não é por acaso. Dois homens ricos, solteiros, morando juntos, planejando e executando um assassinato como quem escolhe a cor da cortina é uma união estável para a vida toda. O laço que os une é tão intrinsecamente doentio e íntimo que transborda uma camada profundamente queer. Não há intimidade explícita na tela (estamos falando de 1948), mas o diabo (e a tensão sexual) estão nos detalhes.
Avançamos para 2002. Em Cálculo Mortal, a base é a mesma, e os cinéfilos do Letterboxd também acusam a dupla de jovens de exalar uma energia absurdamente queer.
Aqui, Richard e Justin são dois estudantes de ensino médio que, secretamente, são grandes amigos e decidem planejar um crime perfeito. Eles matam uma mulher aleatória, apenas para se provarem capazes. Quem investiga o caso é a detetive Cassie Mayweather (Bullock), uma mulher traumatizada que enxerga em um dos garotos o reflexo do seu ex-marido violento.
Com premissas tão idênticas, o que muda ao ponto do primeiro ser uma obra-prima e o segundo um filme esquecível?
Para começar, ocorre uma desvinculação drástica do ponto de vista. Em Hitchcock, nós somos cúmplices dos assassinos; estamos na sala com eles. Em 2002, o foco muda para a detetive e seus traumas passados. Nós saímos da mente dos criminosos para entrar na rotina burocrática da investigação policial. Com essa inversão, perde-se completamente aquele fascínio doentio (e o "carinho" sádico do espectador) pelos garotos.
É até injusto comparar filmes com formas estruturais tão diferentes de se contar uma história. Em Rope, a narrativa se desenrola em um ambiente único e claustrofóbico. Isso exige que o roteiro seja imaculado e prende a nossa atenção a cada gaguejada e suor frio dos personagens. Já Cálculo Mortal faz quase um city tour: cena na delegacia, escola, penhasco, casa abandonada, apartamento. Essa pulverização de cenários tira o peso dramático do roteiro e enfraquece a tensão.
Mas o que mais me incomoda na versão dos anos 2000 é a necessidade hollywoodiana de justificar o mal. O filme ensaia uma discussão sobre a ausência parental, tentando culpar a solidão do subúrbio e aquele limbo em que "nada importa" para os adolescentes. É uma desculpa roteirizada. E vamos combinar: se ter pais ausentes fosse uma justificativa real e absoluta para se tornar um assassino frio e calculista, a raça humana já teria sido extinta há muito tempo.
Em Festim Diabólico, os rapazes não são apenas adolescentes entediados; são homens adultos, elitistas, formados em universidades de ponta, agindo por pura arrogância acadêmica. Sendo bem honesta, qual das duas realidades soa mais tangível e assustadora hoje, em um mundo onde vemos diariamente alunos de medicina formando gangues elitistas em universidades ou grupos de elite achando que estão acima da lei?
No fim, a teimosia em entregar uma explicação profunda e mastigada para o crime em Cálculo Mortal é justamente o que estraga a experiência, complicando demais algo que deveria ser puramente visceral. Como já cansam de dizer por aí: os vilões não precisam de uma história de origem triste ou de pais negligentes para nos deixar em estado de choque. Às vezes, a maldade intelectual e polida, disfarçada de um jantar requintado em cima de um cadáver, é muito mais apavorante.





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