A Memória Amarela: O labirinto do passado e o desconforto liminal de The Backrooms (2026)

 Esse era, sem sombra de dúvidas, um dos meus filmes mais aguardados para esse ano. É importante dizer que, em tese, eu vi The Backrooms (2026) nascer. Eu sou cria da era da internet, então ver algo que brotou das entranhas de fóruns obscuros ir parar na tela grande do cinema é algo simplesmente maluco.

Na minha época, o cinema (assim como as outras grandes formas de arte) era feito para contar as histórias dos "outros". Eram narrativas incríveis, sim, mas que pouco tinham de contato direto com a minha vivência. Agora, a coisa mudou. Esse filme nasceu de uma loucura coletiva da web que eu acompanhei de perto. Eu vi a creepypasta tomar forma! Eu sou a pessoa chata que pode estufar o peito, olhar para trás e dizer com propriedade: "nessa internet aqui, na minha época, tudo era mato".

E, bom, a A24 me fez ir para o cinema. Contestada ou não pelas suas estéticas peculiares, eu fui.

A sinopse nos joga em 1990 (que combina muito com os Backrooms). Acompanhamos Clark, um vendedor de móveis que faz uma descoberta perturbadora no porão da sua loja: um portal que dá acesso a um labirinto infinito de ambientes que parecem um escritório comum e abandonado. Abalado e ao mesmo tempo fascinado, ele arrasta sua funcionária cética, Kat, e o namorado dela, Bobby, para ajudá-lo a mapear essa extensão impossível de salas e corredores surreais. Quando Clark desaparece nesse labirinto, sua terapeuta, Dra. Mary Kline, em meio ao confronto com seus próprios traumas reprimidos, acaba se perdendo nos "bequinhos" em busca de respostas.

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Sobre o filme em si, além dos cenários maravilhosos, a A24 teve uma sacada muito boa e eu tenho que dar meu braço a torcer. Eles conseguiram internalizar o desconforto. Eles pegaram aquela sensação bizarra e solitária que os espaços liminares causam na gente e a transformaram em um estado de espírito.

Ao meu ver, o longa fala muito sobre o conformismo e a zona de conforto que existe entre aquelas paredes idênticas, carpetes úmidos e luzes fluorescentes zumbindo. O ambiente retrata isso fisicamente, mas a mensagem vai um pouco além: é um conselho visual sobre a urgência de se desprender do passado.

Mesmo que você fique preso nesse limbo de paredes iguais, é vital seguir em frente e deixar o que passou para trás. O protagonista, Clark, vivia tão imerso no próprio passado que acabou sendo literalmente consumido por ele. A terapeuta, por sua vez, fez o movimento de ruptura. Ela quebrou o passado (junto com aquele literal pedaço de cimento que carrega no bolso), desprendendo-se das âncoras que a seguravam naquelas salas.

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Sendo um pouco mais doida agora e entrando de cabeça na mitologia da creepypasta: os "bequinhos" podem ser vistos, de certa forma, como um ninho vazio.

Como dito no próprio filme, aquele lugar é algo vivo. É uma entidade arquitetônica que tenta replicar algo que passou por ali e ficou cravado na memória. Ele tenta imitar lugares, pessoas e sentimentos, mas não consegue capturar a alma da coisa. Sabe quando a IA*, lá no começo, tentava gerar imagens e não conseguia fazer mãos com cinco dedos ou olhos que transmitissem o mínimo de vida? É exatamente isso. É como se alguém tivesse passado por lá, deixado o seu registro no ambiente, mas não tivesse ficado.

Os Backrooms absorvem essa memória, nos deixando com aquela exata sensação de quando lembramos de algo da infância e não sabemos mais se aquilo foi um sonho estranho ou a mais pura realidade. As paredes, as luzes e as entidades que vagam por lá não são humanas, mas parecem ecoar as aflições e os vazios que nós mesmos temos.

No fim das contas, o filme é bom? Sim. Mas, em minha defesa, eu falaria que sim mesmo se fosse uma bomba absoluta ksksks. Nada, absolutamente nada, iria me impedir de mentir na cara dura no meu Letterboxd para defender o meu clubismo de internet. Mas podem ir tranquilos, porque ele entrega o que promete.

* PS: Relendo agora, lembrei de outra coisa. Uma das coisas que faz as pessoas identificarem uma arte gerada por inteligência artificial é o quão "amarelada" a imagem é.  

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