O Tempo nas Entrelinhas
Ainda digerindo os ecos da viagem a Salvador, percebo que minha bagagem voltou cheia de indagamentos, questionamentos e ressalvas. Mas, de tudo o que cruzei por lá, uma das coisas que mais capturou minha atenção de forma inesperada foi o Elevador Lacerda.
Foi por conta da sua imponência arquitetônica? Não. Por conta de sua inegável estrutura histórica? Também não. Sendo muito sincera, é apenas um elevador comum. É legal, claro, ter um equipamento no meio da cidade integrando duas partes distintas, mas ainda não é isso que me cativou.O que realmente me fez parar, com aquele olhar de nerd fascinada pelas engrenagens do mundo, foi um detalhe humano: o Elevador Lacerda tem um ascensorista!
Para quem não se lembra, o ascensorista (ou cabineiro) era o profissional que operava manualmente os elevadores. Não era apenas o ato passivo de apertar um botão; era uma condução quase artesanal:
⬝Antes da automatização, com o auxílio de uma manivela, eles precisavam alinhar perfeitamente o piso do elevador com o andar exato, exigindo muita habilidade para evitar degraus, além de abrir e fechar as pesadas portas de grade de metal.
⬝Eram eles que calculavam no olho o peso máximo e a quantidade de passageiros para garantir que a máquina funcionasse com segurança.
⬝Além de conduzir a cabine, recepcionavam os visitantes, operavam elevadores de carga e garantiam a segurança do patrimônio.
✲No Brasil, a profissão foi regulamentada por Juscelino Kubitschek, através da Lei nº 3.270/1957, que determinou a jornada de trabalho de 6 horas diárias (um marco histórico que, incrivelmente, ainda é resguardado pela categoria)
Hoje, com a tecnologia, essa profissão tornou-se raríssima, um fantasma que sobrevive apenas em edifícios históricos ou em prédios de alto luxo. Ver aqueles rapazes lá dentro, apertando os botões de um sobe e desce contínuo, foi esbarrar em algo que eu sequer sabia que ainda existia na prática.
Esse encontro na Bahia destrancou uma gaveta muito específica da minha memória: a do meu TCC, cujo título era "Trabalhadores do Hotel Palace: um estudo social em Ribeirão Preto no século XX". Durante a pesquisa, o que mais encontrei foram registros de profissões que hoje não passam de poeira nos arquivos.
Na época, notei que não havia diferenciação formal nos registros entre os funcionários do hotel e os do restaurante. Eles compartilhavam o mesmo prédio, mas exigiam logísticas e cuidados completamente diferentes. Para evitar anacronismos, fiz questão de manter a nomenclatura original de cada função, e é aí que a viagem no tempo acontece:
No Hotel (40% dos registros): Portaria (chefe ou auxiliar), arrumador, lavadeira, guarda-noturno ou vigilante, roupeira, quarteira, passadeira, almoxarifado e, veja só, o nosso ascensorista (tanto diurno quanto noturno).
No Restaurante (54%): Garçom, chefe ou cozinheiro, ajudante de cozinha, copeiro, sorveteiro, peão de cozinha, cambuzeiro, cafeteiro, caixa e barman.
Os "Outros" (6%): Funções brutas que sustentavam a operação nos bastidores, como lenhador e carpinteiro.
Não vou me aprofundar nas engrenagens do hotel agora, mas pare para pensar: não é incrível como inúmeras profissões simplesmente deixaram de existir? Ofícios que parecem inimagináveis para a nossa realidade automatizada eram o ganha-pão diário de centenas de pessoas há não muito tempo.
Eu fico boba de ver isso. Fico infantilmente encantada.
São essas "bobagens" (um homem conduzindo um elevador na Bahia, uma quarteira nos arquivos de Ribeirão Preto, ou um NPC vendendo jornal no faroeste digital) que me fazem perceber a passagem e a permanência do tempo no cotidiano.
A História não mora apenas nos grandes eventos; ela sobrevive nas pequenas engrenagens que o mundo decidiu esquecer.


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