O Limbo dos Esquecidos
Sentar na frente do computador hoje é encarar um abismo de algoritmos que parecem ter esquecido que, entre o chocalho e o crachá, existe uma fase chamada adolescência. Para quem cresceu entre 2000 e 2010, a sensação é de que habitamos uma Atlântida que afundou sem deixar sobreviventes. Naquela época, a indústria nos servia o banquete principal.
Havia uma efervescência palpável. Ser jovem era ter um ecossistema próprio. Tínhamos a MTV como bússola moral, o TVZ ditando o ritmo das manhãs de sábado e a saudosa VEVO organizando o visual dos clipes que moldavam nossa estética. Se a vida real estava difícil, podíamos nos perder na segurança de uma internet que ainda parecia um grande playground de descobertas, ou mergulhar em gameplays que não eram apenas entretenimento, mas refúgio e identidade.
A juventude precisa se ver. É uma necessidade quase biológica de espelhamento. Precisávamos dos dilemas de Harry Potter ou das famílias disfuncionais de Percy Jackson para entender que nossos próprios dramas não eram erros de sistema, mas parte do código. Dos palcos, ídolos como Justin Bieber ou o fenômeno do One Direction criavam um senso de comunidade que hoje parece diluído. Até o Wattpad, que antes era o terreno fértil da fanfiction e da criatividade bruta, hoje se tornou um balcão de negócios, com anúncios interrompendo o fluxo de cada capítulo. As pessoas tinham grupos, identidade, tinham casas em Harry Potter, tinham pais/mães em Percy Jackson, tinham nicknames, nomes de fandom...
O que aconteceu? O mercado descobriu que a mina de ouro não está mais na rebeldia adolescente, mas na passividade infantil. Sob a exaustão do capitalismo, pais cansados encontram nas telas um respiro necessário, mas perigoso. A indústria percebeu que crianças com acesso irrestrito são os consumidores perfeitos: elas geram cliques desenfreados e tempo de tela infinito.
O resultado é uma "emburrecedora" onda de conteúdo; com cores saturadas, ritmos frenéticos e roteiros vazios, desenhados puramente para vender o próximo boneco ou acessório.
Além do fenômeno bizarro de crianças de dez anos invadindo lojas de cosméticos de luxo, aliciadas por uma indústria da beleza que cria necessidades em peles que sequer têm poros obstruídos.
Para o jovem que sobrou nesse cenário, o abandono é real. Sem um lugar ao sol na grade de programação ou nos planos de marketing, restam dois caminhos ingratos: esticar a infância até o limite do ridículo ou saltar, sem paraquedas, na vida adulta.
Vemos crianças consumindo músicas de Ana Castela e outros ícones do sertanejo que cantam sobre traições, revoada e responsabilidades que deveriam estar a décadas de distância. Elas mimetizam gestos, preocupações e estilos de vida de quem já tem boletos para pagar, simplesmente porque não há mais o "limbo" seguro da juventude.
A indústria desistiu de criar para o adolescente porque o adolescente questiona, critica e busca autenticidade (e isso dá menos lucro do que a reprodução em massa de conteúdo infantil ou a adultização precoce). No fim, estamos criando uma geração que não sabe ser jovem, apenas porque não houve quem tivesse a coragem de lhes oferecer um espelho.
O que nos resta é a nostalgia de uma época em que o mundo, pelo menos por uns anos, era nosso.



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