O Império te odeia (mesmo que você tenha ajudado a construí-lo)

Promessa feita a um amigo é, por definição, um roteiro que precisa ser cumprido. Então, aqui estou eu, tentando apresentar o titã da cultura pop: Star Wars.

Muita água passou debaixo dessa ponte desde que a franquia surgiu nos cinemas, numa época em que eu sequer era um rascunho de ideia. Já se discutiu de tudo: se é ficção científica de verdade ou apenas fantasia espacial, se a alusão à Guerra do Vietnã é precisa, ou qual seria a cor do meu sabre de luz segundo algum teste de personalidade do BuzzFeed.

A verdade é que eu sou uma negação para criticar a saga (pelo menos na sua era "pré-disneyática"). Para além dos sabres brilhantes e do clássico som de pew pew, tenho aquele laço afetivo de quem cresceu vendo os filmes numa tarde de domingo com o pai. É memória afetiva pura, daquelas que blindam o senso crítico. No entanto, ao reassistir com olhos mais atentos, uma nova impressão saltou da tela.

Quero falar sobre como um regime (e aqui faço um esforço hercúleo para não usar o termo fascismo logo de cara) tem o hábito perverso de largar a mão de quem o ajudou a subir ao topo.



No Episódio III: A Vingança dos Sith, vemos Palpatine usar e abusar de seu vínculo com Anakin. Naquele universo, os Jedi nada mais são do que monges com poder de fogo. A Força é a religião oficial, com seus dogmas, ritos de iniciação e um respeito quase ancestral. Por muito tempo, os Jedi serviram à democracia como um braço religioso para manter a ordem. Palpatine, mestre na arte da manipulação, entende esse poder e o drena até não sobrar nada.

O que mais me impressiona, tanto no filme original de 1977 quanto em Rogue One, é o isolamento de Darth Vader. É difícil não sentir uma ponta de empatia (e aqui peço licença para abraçar o legado de James Earl Jones) ao ver Vader ser escurraçado pelos próprios "colegas de trabalho".

Mesmo sendo o braço direito do Imperador, ele é constantemente descredibilizado pelos burocratas que fazem o Império funcionar. Vader até distribui alguns enforcamentos por telepatia para manter a hierarquia, mas a falta de fé ao redor dele é palpável. No novo regime, a religião que uma vez serviu ao Estado vira uma ameaça a ser caçada; e quem a pratica, mesmo que seja o general, vira um pária entre os seus.

A visão da Disney em Rogue One trouxe outra camada interessante: o descarte da ciência. Os cientistas que venderam seu intelecto para a criação da Estrela da Morte são tratados como peças de reposição. Assim que cumprem o seu papel técnico, deixam de ser úteis.


Desde o "chão de fábrica" (aqueles que colocam a mão na massa) até as lideranças que exerciam algum poder, todos são apenas massa de manobra. Essa relação tóxica entre o regime e o operário não é novidade na ficção, e infelizmente, não precisa de muito esforço para encontrar verossimilhança na vida real.

Esse cenário de promessas vazias me faz pensar em movimentos políticos recentes, como a última (re)eleição de Donald Trump. Houve toda uma narrativa de proximidade e um suposto "amor" pelos votos latinos. No entanto, uma vez conquistado o poder, o que se viu foram registros de deportações em massa e as mesmas pessoas que o apoiaram chorando diante das câmeras, dizendo o quanto foram enganadas.

Seja numa galáxia muito, muito distante ou nos noticiários de hoje, a lógica do poder absoluto parece ser a mesma: ele te convida para a mesa, usa o seu talento (ou o seu voto) para se banquetear e, no fim, é você quem acaba servido como o prato principal.



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