O Grande Assalto (2013) e o Roubo dos Nossos Limites
Se tem uma categoria cinematográfica que nunca falha em existir, é o "filme de pai de domingo". Sabe aquele longa que o seu pai coloca na TV depois do almoço única e exclusivamente porque tem o The Rock no elenco? Pois bem, Empire State ("O Grande Assalto", aqui no Brasil) é exatamente esse filme.
A premissa, baseada em fatos reais do início dos anos 80, acompanha Chris Potamitis, que não consegue entrar para a polícia e acaba virando vigia noturno de uma empresa de carros-fortes. Ele percebe falhas na segurança, comete o erro crasso de comentar isso com seu melhor amigo, Eddie, e logo os dois estão no centro do maior roubo de dinheiro da história dos EUA até então.
O filme é bom? Não. É o puro suco do esquecível. Mas, como uma excelente ex-usuária do falecido Twitter e uma chata de carteirinha para analisar o comportamento humano, não pude deixar de fisgar um questionamento que grita nas entrelinhas da tela: a superficialidade aterradora das amizades masculinas e o nosso medo universal da solidão.
Eddie é um péssimo amigo. A família do Chris sabe disso, o Chris sabe disso e até o cachorro da rua deve saber. A grande pergunta que martela a cabeça de quem assiste é: por que o Chris simplesmente não dá um pé na bunda dele?
Embora não seja o meu local de fala, é impossível não notar, tanto ao meu redor quanto nas redes sociais, a falta de profundidade abissal em algumas amizades masculinas. Vemos amigos de longa data que não sabem o dia do aniversário um do outro, que desconhecem os medos, as ambições e os limites de quem chamam de "irmão".
Para entender melhor essa dinâmica, convoquei meu correspondente oficial no mundo masculino, e os relatos dele traduzem perfeitamente o que vemos na tela. Segundo ele, existe uma forte pressão, especialmente entre os homens héteros, para estarem sempre tendo que se provar como homens. É aquela velha e tóxica cobrança no rolê de bebida: se o cara recusa um copo, logo tem que ouvir um tom de deboche questionando se ele não vai beber porque a mulher não deixa. Ele ainda pontua uma diferença crucial: enquanto a toxicidade nas amizades femininas tende a ser menos explícita, acontecendo mais nas entrelinhas, no universo masculino ela se manifesta de uma forma bem mais grossa e direta.
Tirando a lente do gênero por um momento, a relação de Chris e Eddie escancara um problema muito mais amplo: o medo de estar sozinho.
É esse pavor do isolamento que nos faz aceitar e arrastar relacionamentos (sejam de amizade ou românticos) que não apenas desrespeitam os nossos limites, mas os exploram ativamente. Eddie não é apenas uma má influência; ele é um parasita emocional que usa o vínculo de anos como passe livre para afundar o amigo junto com ele. A gente aceita o amigo âncora porque a sociedade nos convenceu de que qualquer companhia, por mais destrutiva que seja, ainda é melhor do que encarar o próprio reflexo no silêncio de um quarto vazio.
No fim das contas, Empire State não vai entrar para a sua lista de favoritos (a menos que você esteja procurando barulho de fundo para a soneca de domingo). No entanto, vale a reflexão: quantas vezes já não fomos o Chris da nossa própria história, segurando a mão de quem só nos puxava para baixo, simplesmente pelo medo de soltar e ter que caminhar só?


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