"Foi Apenas um Sonho": Onde o vazio nos encontra?

Às vezes, a tradução brasileira de um filme acerta no alvo com uma precisão que o original nem sonhou. "Foi Apenas um Sonho" carrega um peso muito mais melancólico e preciso do que o geográfico Revolutionary Road. Ele já nos avisa, de antemão, que o que estamos prestes a ver é a autópsia de uma ilusão.
Assistir a esse filme hoje me traz uma saudade quase física de quando o cinema tinha luz e sombra. Sinto falta de uma fotografia que não fosse otimizada para o brilho padrão do streaming, mas que usasse as cores e os contrastes para narrar o que as palavras não davam conta. Em 2008, o cenário americano já estava mudando com a crise econômica, e o filme surge como um lembrete de que o "vazio sem esperança" é um fantasma antigo.


Na psicanálise (no pouco contato que tive), há muito sobre o não-lugar. Frank e April Wheeler vivem exatamente ali: um espaço que não é lar, não é destino, é apenas uma paragem entre quem eles achavam que seriam e quem o subúrbio de Connecticut exigiu que se tornassem.

Há uma ânsia latente de serem transgressores, de quebrarem as correntes da mediocridade dos anos 40, mas o medo de perder a zona de conforto é o carcereiro. A única figura que realmente consegue ser transgressora no filme é John, o "doente mental" recém-saído de um sanatório. É fascinante (e assustador) que a verdade precise vir de alguém rotulado como louco. Ele grita, ele assusta, ele aponta o dedo para o vazio. Ele é o espelho da mudança, e como toda mudança real, ele é violento.


O que mais incomoda na dinâmica dos Wheeler é a falta de limites.

  • O "não quero falar sobre isso" é constantemente atropelado.

  • Não existe a distância necessária para que os conflitos respirem.

  • Eles se invadem, se desrespeitam e se consomem em uma honestidade errônea que serve apenas para ferir.

Enquanto Frank vê sua masculinidade ser questionada a cada esquina (oscilando entre o tédio do escritório e a busca por validação em casos extraconjugais) April recorre ao álcool e ao cigarro como únicos anestésicos possíveis. Para ela, Paris não é uma cidade; é uma vontade. É a última tentativa de salvar a própria alma.

A crítica aqui é escancarada, mas nunca desleixada. Paris é o símbolo da vida que eles não têm coragem de viver.


Muitos veem o terceiro filho como o motivo do fim do plano, mas, ao meu ver, ele é a única coisa que April consegue controlar. Quando Frank decide aceitar a promoção (escolhendo o conforto em vez de Paris), April usa a própria biologia como última ferramenta de protesto. O aborto não é apenas uma escolha médica; é o encerramento forçado de um futuro que ela já não quer habitar.

O filme termina sem catarse. Não há o alívio do choro, não há o respiro da esperança. O que resta é o silêncio (literalmente), no caso do marido da corretora que desliga o aparelho auditivo para não ouvir mais as mentiras sociais.

Fiquei com a mesma esperança dolorida de April: e se eles tivessem ido? Como seria esse casal em Paris? Teriam sido felizes ou apenas teriam levado o seu vazio para viajar? No fim, talvez o filme nos ensine que o endereço não muda quem somos, mas a falta de coragem para mudar o "eu" é o que realmente mata.


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