Demolição (2015): e a audácia de se perder
Há alguns anos, a marca de chocolates Milka lançou uma campanha de marketing que era, ao mesmo tempo, brilhante e incômoda: eles venderam milhares de barras faltando exatamente o último pedaço. Diante do desfalque proposital, o consumidor tinha uma escolha através de um código na embalagem: reivindicar aquele quadrado de chocolate de volta para si ou enviá-lo pelo correio, com uma mensagem, para alguém que amasse. Nos Estados Unidos, essa cultura da carta de reclamação corporativa é quase um esporte nacional, um confessionário burocrático. E foi a primeira coisa que me veio à mente quando Davis Mitchell sentou para escrever suas longas cartas de desabafo para a empresa de máquinas de doces em Demolition (2015).
Logo no início do longa, o roteiro nos joga na cara a cobrança invisível da sociedade. Existe um manual de instruções social até para a tragédia. Mitchell é empurrado a ser, a sentir e a chorar dentro de um cronograma aceitável, operando no piloto automático da dor performática. Assim como em "Foi Apenas um Sonho", as amarras invisíveis das expectativas alheias tentam enquadrar o indivíduo em um molde pré-fabricado. Mas o que acontece quando o seu interior está completamente anestesiado?
Surge, então, uma ânsia incontrolável pela desconstrução física. Mitchell não quer quebrar o mundo ao seu redor por pura revolta; ele quer, no fundo, se desmontar. Ele precisa separar as engrenagens para entender como as peças funcionam.
O seu primeiro alvo é a geladeira que vazava na cozinha.
Aqui cabe um paralelo cirúrgico com outro personagem recente do cinema: diferentemente do Coringa em Joker, que se tranca na geladeira porque enxerga naquele eletrodoméstico o único afeto que conhece (o frio, o isolamento e o teto protetor), Mitchell vê a sua geladeira como o último elo físico com a sua falecida esposa, Julia. Era, afinal, a última coisa que ela havia lhe pedido para consertar antes do acidente.
Nessa órbita de ausência, Phil (o sogro) e Mitchell encontram um terreno comum porque ambos amavam a mesma pessoa. Mitchell passa a seguir quase à risca os conselhos de Phil, que na cultura americana ganha o peso e o título simbólico de um "pai de outra família". É a busca por uma nova ancoragem.
É nesse vácuo que Karen Moreno aparece. Ela surge como a representação exata da ânsia absoluta de ser respondido em um mundo indiferente. Por outro lado, o relacionamento disfuncional de Karen com Carl funciona como uma metáfora perfeita do que a depressão faz no cotidiano: um empecilho crônico, uma força cinzenta que sequestra e rompe a continuidade dos nossos sonhos. Karen, assim como Mitchell, precisava urgentemente se libertar das amarras do que o mundo convencionou chamar de "normal".
O figurino do filme acompanha essa derrocada psicológica com maestria: o terno impecável de investidor do private equity vai perdendo seus elementos aos poucos, desabotoando-se, desfazendo-se em meio ao caos da mente de Mitchell, até que os sapatos sociais abrem espaço definitivo para as botinas pesadas de demolição.
Existe um ponto profundamente íntimo nessa transformação: em alguns momentos, Mitchell quer, implicitamente, ser a Julia. Ele a enxergava como alguém genuinamente livre em sua própria mente. Ele tenta mimetizar essa essência para poder estar confortável o suficiente para perder a esposa e, de quebra, se perder junto com ela.
Para quebrar a anestesia desse luto, ele precisa sentir dor. Primeiro vem a dor acidental, com o prego cravado no pé; depois, a dor intencional, com os tiros de colete à queima-roupa. São choques de realidade autoimpostos, tentativas desesperadas de lembrar ao próprio cérebro de que ele ainda está vivo e de que o sangue ainda corre.
Para quebrar a anestesia desse luto, ele precisa sentir dor. Primeiro vem a dor acidental, com o prego cravado no pé; depois, a dor intencional, com os tiros de colete à queima-roupa. São choques de realidade autoimpostos, tentativas desesperadas de lembrar ao próprio cérebro de que ele ainda está vivo e de que o sangue ainda corre.
A personagem de Karen acaba funcionando como o laboratório emocional onde Mitchell faz as pazes com a sua relação com as mulheres, permitindo-se fazer por ela tudo o que a rotina o impediu de fazer por Julia. E Chris, o filho problemático de Karen, surge como o espelho de sua própria criança interior (um reencontro brutal e necessário com a rebeldia, a descoberta e a inocência perdida).
O luto físico ganha corpo e forma na destruição da própria casa. Marretar as paredes é demolir os significados, as aparências e o antigo "eu" corporativo.
No meio daquela destruição organizada, as inúmeras conchas marinhas espalhadas pela narrativa nos entregam a metáfora final. Conchas são esteticamente lindas, mas são objetos fechados e rígidos por natureza, escondendo o que quer que esteja dentro, seja uma pérola ou apenas carne. Mitchell cansa de ser uma fortaleza calcificada. Ele não quer mais ser uma concha protetora.
A cena final na beira do rio, com a demolição dos prédios ao longe e Mitchell correndo alegremente atrás de um grupo de crianças, amarra o texto da vida. A cura vem da coragem de aceitar o entulho. Afinal, a existência humana é essa colagem caótica: é ter a liberdade de ser um pouco criança, ser mulher, ser homem e, depois de se desmontar por completo, finalmente ter a audácia de ser você mesmo.




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