De Bauman ao Djavan: Como o movimento nos define (ou nos apaga)

Recentemente, entre uma conexão e outra, me peguei observando a arquitetura da nossa rotina. Aeroportos. Naquela única (e fascinante) cadeira de psicanálise que fiz na faculdade como optativa, discutimos o conceito de não-lugar. E, sendo bem sincera, não existe definição mais precisa para um terminal de embarque.

Aeroportos são zonas de transição, feitos para o fluxo e a despersonalização. Eles são propositalmente confortáveis por um tempo determinado (o tempo necessário para você consumir, se registrar e se manter em movimento); Mas tente ficar ali por um longo período e o cenário se revela: é um ambiente que rejeita a permanência. Existe uma hierarquia invisível que se materializa nas salas VIPs, segregando corpos sob o pretexto de "exclusividade", enquanto o restante da massa é comprimida em saguões estéreis com porções miúdas de comida.

Trazendo o olhar de Bauman para o check-in, percebemos que ali as relações são a definição pura do líquido. Estamos ali, mas não estamos em si mesmos. O aeroporto é desenhado para que a gente não se misture, não crie raízes, não construa comunidade. É o ápice dessa modernidade que nos quer sempre de passagem. 

E o desfecho dessa lógica é o próprio avião: voos domésticos, com suas cadeiras apertadas e o serviço de bordo que mal mata a fome, reforçam que ali não somos passageiros, somos carga viva que precisa ser transportada do ponto A ao ponto B com o mínimo de desconforto aceitável. É o não-lugar no seu estado mais bruto.


Por outro lado, saí de um show do Djavan essa semana com a consciência transformada. Se o aeroporto é o não-lugar, o show é o super-lugar.

No show, a lógica se inverte completamente. Ali, pessoas de origens, idades e bagagens completamente distintas estão vibrando em uma mesma frequência. Existe um ideal comum, uma vontade única que nos une debaixo das luzes. E o mais fascinante: o desconforto, que no aeroporto seria insuportável, aqui é irrelevante. O calor, o empurra-empurra, a espera... tudo é engolido por uma sensação de êxtase coletivo que ignora as adversidades do ambiente físico.

Enquanto no aeroporto somos forçados a ser indivíduos isolados em uma bolha de pressa, no show nos tornamos parte de um organismo só. Não estamos ali para transitar ou para sermos processados por uma logística de transporte; estamos ali para "ser".

Talvez a nossa busca por lugares que nos permitam essa coletividade (esse mergulho em um ideal que ignore o cansaço) seja a nossa maior resistência contra o mundo líquido que nos empurra para a solidão das salas de embarque. O aeroporto quer nos ver sozinhos e eficientes; a música, pelo contrário, nos convida a sermos, coletivamente, imensos.

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