As Ruínas que o Turismo Despreza
Meses antes de pisar em Salvador, debrucei-me sobre um roteiro de viagem com a obsessão de quem sabe o próprio tamanho diante do tempo. Salvador é uma cidade antiguíssima, construída sobre camadas e mais camadas de memórias que não se entregam de bandeja em apenas uma semana. Eu, uma simples mortal, sabia que jamais daria conta de ver tudo.
Mas havia um ponto inegociável no meu mapa: a Fundação Garcia D'Ávila. O famoso castelo. Só de olhar as fotos, a paixão foi imediata. Calculei a rota logrando os obstáculos: cerca de 1h30 de distância e dolorosos R$ 320,00 de Uber (ida e volta). O plano estava tão cravado na minha mente que eu já tinha até o contato deles no Zap salvo para deixar o ingresso comprado.Foi então que, na entrada do hotel, um gentil vendedor de pacotes me ouviu (aventureira e, claro, pechinchadora) e ofereceu a solução que parecia mágica: um passeio para uma praia pertinho do castelo. De lá, garantiu ele, eu teria tempo de sobra para fazer minha visitação. Pensei: perfeito, mato dois coelhos com uma caixa d'água só.
Compramos o pacote e a aventura começou bem cedinho. Lá estava eu: morrendo de sono, com fome, numa autêntica situação de barril. O cenário era um ônibus compartilhado onde a trilha sonora era implacável: idosos ouvindo vídeos do TikTok e áudios do WhatsApp no volume máximo que os alto-falantes de seus celulares conseguiam emanar. Um suco de distopia moderna durante intermináveis 1h30 de estrada.
Chegando perto do nosso destino, o guia da empresa (que eu acho que se chamava Marco) assumiu o microfone. Durante uns vinte minutos, ele recitou a história daquela praia e chegou, inclusive, a mencionar a importância do museu/castelo da região. Mas durou pouco. Logo em seguida, iniciou-se o verdadeiro objetivo do tour: a venda massiva do que tinha por lá (mergulho, um projeto de ecoturismo e um passeio extra de buggy por uma mata).
Aproveitei a brecha e comuniquei meus planos inadiáveis de ir ao castelo.
Marco olhou no fundo dos meus olhos, com uma frieza burocrática, e disparou:
"Pra que você quer ir lá? Só tem ruínas, não há nada lá."
Talvez fosse a minha TPM. Talvez fosse o fato de que a porra da viagem inteira era, na verdade, a comemoração da minha formatura em História. Mas aquela frase me doeu fisicamente. Toda a minha movimentação interna e externa era para aquele castelo. Em segundos, Marco esmagou meus planos, emendando uma série de barricadas logísticas: disse que nenhum buggy nos levaria até lá, que sairia caríssimo e que iríamos atrasar todo mundo.
A minha teoria pessoal é puramente estrutural: a empresa que estava conosco provavelmente não receberia nenhuma fatia de comissão em cima desse passeio ao castelo. Se não há taxa de retorno, o desconvencimento entra em cena. Mas precisava ser com tanta rispidez?
Por que a história é sempre tão bonita de longe, nos discursos decorados no microfone do ônibus, mas nunca é tida como merecedora de visitação real e adoração?
Eu quero sentir as ruínas. Eu quero estar onde tantas pessoas estiveram. Preciso que o espaço seja uma viagem no tempo, a ponte física que me liga a esses indivíduos anteriores a mim, e depois, aos que virão.Eu quero estar num lugar que já existia muito antes de mim, e que permanecerá de pé muito depois de eu ir. Quero que meus sentidos passem por alguns minutos a experimentar esse ambiente permanente, enquanto eu viajo pelo tempo que é minha brevíssima existência neste mundo. É exatamente isso que é a História.
Bom, nessa viagem, não pude fazer tudo. O castelo é um desses desejos que tive de engolir e deixar de lado. E o que mais deixa um gosto amargo na boca é saber que não foi por mau tempo, ou desorganização pessoal minha. Foi por preconceito alheio, engolido pela lógica fria que apaga o passado se ele não puder ser vendido como pacote adicional.


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