A Estética da Exaustão: Por que a indústria desistiu da felicidade feminina?
Estou aqui, com meu balde de pipoca, assistindo ao filme polonês da Netflix, "O 'W' da Questão" (W jak morderstwo). O que deveria ser apenas um passatempo investigativo logo se torna um gatilho para um questionamento que não quer calar: por que a indústria insiste em nos entregar, repetidamente, o arquétipo da mulher exausta, da "escrava do lar" moderna, cercada por maridos inúteis e maternidades que mais parecem sentenças do que escolhas?
Não me entenda mal. Eu sei que isso é uma realidade. Mas, como uma jovem criada pelo antigo Twitter na época do Quebrando o Tabu, eu me pergunto: o que ganhamos quando alimentamos esse movimento em uma arte que possui infinitas possibilidades?
Ao olhar para as minhas últimas sessões, o padrão é quase assustador. Em "Vanished into the Night" (2024) (um filme italiano recente), mesmo na pele da vilã, o que vemos é uma mãe drenada pelas circunstâncias. Em "The Good Nurse" (2022), nos deparamos com outra mulher cansada, doente e sufocada por problemas financeiros que o sistema se recusa a resolver. Até em obras como "All Her Fault", o roteiro é o mesmo: mulheres em relações heterossexuais líquidas, escondendo suas potências sob camadas de cansaço crônico.
A indústria parece ter descoberto que a exaustão feminina "vende". Talvez porque seja fácil de produzir massivamente, ou talvez porque reflita esse capitalismo exaurido onde as telas servem como o único respiro para pais que já não sabem mais o que é lazer.Minha dúvida, como alguém que ainda está começando a vida e traçando seus próprios roteiros, é simples: não existem casamentos bons? Não há maridos que sejam parceiros de verdade?
A arte deveria servir para além da crítica crua. Ela deveria, em algum momento, funcionar como um referencial de vida. Se o cinema só me mostra mulheres que "saltam no escuro" da vida adulta para encontrar o abandono e o peso de preocupações que não deveriam ser delas, que tipo de futuro estamos projetando?É frustrante ver a "força" dessas mulheres ser sempre retratada como uma resistência silenciosa ao abuso cotidiano.
Não quero que minha trajetória seja um slow burn de decadência doméstica. Quero que a arte volte a ser o lugar onde a gente se inspira e se identifica com a possibilidade de algo melhor, e não apenas um lembrete visual de que o cansaço é o nosso único destino inevitável.
PS: Embora obras como The Good Nurse e All Her Fault sejam ancoradas em casos reais, a transição para a tela nunca é um processo neutro.
Quando uma história cruza a fronteira para o campo da ficção, ela deixa de ser apenas um registro factual para se tornar uma série de escolhas políticas fundamentais. No cinema, o diretor e o roteirista decidem onde colocar a lupa. Ao escolherem enfatizar o esgotamento extremo ou a solidão dessas mulheres em vez de outros ângulos daquelas mesmas vidas, eles estão, na verdade, moldando uma narrativa específica sobre o que significa ser mulher hoje.
No final das contas, mesmo o "baseado em fatos reais" é um território de construção. Eu entendo que o cinema não apenas reflete a realidade, mas decide qual parte dela merece virar espetáculo (e essa escolha é o que define o impacto político da obra no nosso imaginário).

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