Um vinho que cairia bem.

Eu quero beber vinho. Tem algo no suco amargo com coloração fúnebre que encanta. Algo nesse calor líquido que passa na boca e pula pra garganta.Algo que me conforta. É como me permitir descontrolar-se. Meus internos me chamam para as palavras. Meus desejos e meus anseios querem ser escritos. Querem ser dotados de nome e forma. Querem existir para além de mim. Eu não gosto disso. Não gosto de ter de ouvir obrigações e sugestões. Detesto feedback, mesmo que sejam os meus.

 
O almoço de hoje foi macarrão alho e óleo, o lanche da tarde? Pizza requentada. O café foi com bolo de cenoura e cobertura de chocolate. Se Deus quiser, o jantar não será angústia e o salgado das lágrimas em meus lábios. Eu grito por mim quando há silêncio, e me silencio quando há barulho. Eu escrevo querendo ser lida, ser adorada, amada e odiada. Ser notada.

 Maquiavel tem pena de mim, Dante tem ódio. Me colocou no inferno mais frio que tem porque sabia que eu adoraria me aquecer entre as cobertas da melancolia. Que piada. Eu me acho boa nisso, sabe?

 Como se fosse uma gênia escondida. A filha perdida da brasileira-ucraniana Clarice. Eu nunca li nada dela. Deveria? Clássicos me entediam. Não quero gostar de algo que todo mundo gosta. Até que gosto de ser a exceção à regra, mas não o deslocamento da regra.


 Ando na corda bamba da linha tênue. Eu sou a insistência dos meus. O dedo gangrenando dos antes de mim, e a ferida aberta dos seus antecessores. Eu sou o dedo frio pela falta de sangue, pela falta de virtude, propósito e ousadia. Eu sou o pedaço que falta, o encaixe perfeito, o dedo enfaixado,a cara metade. O ódio semeado e o amor desmantelado. 

Eu sou o resto. A sobra, a sobre, a rapa do tacho. O resto de água no filtro de barro. O sinal pra troca. Me troquem. Me atualizem se tiverem coragem. Me descartem como eu me descarto. O que foi? Não têm a coragem e não querem que eu tenha. Que drama. Que exagero. Que burrice. Que raiva é essa dentro de mim? De onde vem? O que faço com isso para além de ‘tecladas’ violentas e arranhos à pele? Bobagem. 

Não muda nada, não vai mudar. Me cortei hoje. Por isso a ideia do dedo gangrenado. Palavra engraçada. Gangrena. Doi, fica frio, estranho. Eu tenho nojo do corpo humano. Eu tenho nojo de ser reduzida a um maquinário de carne. Eu tenho medo de ser reduzida e gostar da insignificância de ser só um, mas, ao mesmo tempo, não quero me destacar. 

 Não sei o que quero. O desconforto é tão confortável. Vou me adaptando sabe? Eu tinha medo do escuro, agora sinto conforto. 

Medo do silêncio, agora morro de amores pela ausência. Medo do que irei me tornar. Será que irei amar o que hoje odeio? E se,ao continuar odiando o que odeio, eu não me atualize? Eu não mude? Não mudar é pior que mudar totalmente? Ser ou não ser o barco de Teseu?

Comentários

Postagens mais visitadas