O Vício no Talvez
Às vezes, quando coloco minhas ideias no papel, elas parecem flertar com a teoria da conspiração. Mas, quanto mais observo, mais me convenço de uma verdade incômoda: o brasileiro é, por excelência, um viciado em apostar. Não quero apenas atribuir a atual epidemia das Bets a decisões políticas recentes. A questão é mais intrínseca, quase celular. Para entender o "tigrinho" de hoje, precisamos olhar para as caravelas de ontem.
Desde que o século XVI, nossa formação foi baseada no salto no escuro. O sistema de Capitanias Hereditárias foi, em sua essência, a primeira grande aposta de alto risco do território: homens cruzando um oceano para investir suas economias em pedaços de terra desconhecidos, cercados por incertezas e perigos. O Brasil não nasceu de um planejamento; nasceu de um palpite de que o novo mundo daria lucro.
Essa herança moldou nossa psique. Apostamos na vitória na Guerra do Paraguai, apostamos que a próxima revolta mudaria o sistema, apostamos que o café sempre seria ouro. Misturamos sobrevivência com o desejo de "quebrar a banca". O inesperado nos governa.
Gosto de dividir nossa compulsão em três alcances temporais:
Curto Alcance (A Microaposta): É a aposta contra o relógio. Acordamos apostando que o café sairá antes do ônibus passar; que o ônibus terá um lugar vago; que conseguiremos equilibrar nossas obrigações e as dos outros sem um colapso nervoso antes de sexta-feira.
Médio Alcance (A Aposta Financeira): É o equilibrismo das contas. Apostamos que o dinheiro que entra no dia 20 será suficiente até o dia 5. Otimistas por necessidade, jogamos com a sorte de que não haverá um pneu furado ou uma dor de dente no meio do caminho. Nossa economia doméstica é um jogo de pôquer contra a inflação e o imprevisto.
Longo Alcance (A Aposta Existencial): Aqui, o objeto da aposta somos nós mesmos. Apostamos na dieta que começa segunda, no curso que mudará nossa carreira ou, no outro extremo, apostamos que o cigarro e a bebida não cobrarão o preço no futuro. É a crença mística de que as consequências do hoje serão, por algum milagre, diferentes amanhã.
Talvez a parte mais perversa dessa cultura seja o quanto as pessoas se sentem no direito de apostar com as fichas dos outros. Isso é nítido nos relacionamentos.
Quando uma estrutura familiar ou afetiva se rompe, sempre surge um "crupiê social" para dar um palpite. Se um parente é tóxico, a sociedade coloca essa relação em uma mesa de Blackjack: "Ele errou, mas é seu pai/irmão/sangue. Dobra a aposta! Tenta mais uma vez!". Somos coagidos a apostar nossa saúde mental em relações falidas porque "a família é sagrada".
O mesmo ocorre com a pressão pela maternidade ou paternidade. O clássico "E se você se arrepender?" é uma aposta externa feita sobre o útero e o tempo alheio. O brasileiro, além de jogar o seu jogo, quer palpitar no tabuleiro do vizinho.
Enquanto o gringo talvez busque o cassino pelo glamour ou pelo vício matemático, o brasileiro aposta por uma questão de DNA. Apostamos para sobreviver, para sonhar e para suportar o presente. Às vezes o lance é dinheiro, mas, na maioria das vezes, estamos jogando na mesa a nossa sanidade, o nosso tempo e, por fim, a nossa própria vida. No Brasil, o futuro nunca é um plano; é sempre uma odd de 2.0.


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