Miss Meadows (2014), How to Make a Killing (2026) e a individualização de problemas sociais.
Vi dois filmes em sequência, em um intervalo de 03 dias entre eles.
Com a nota no Letterbox de 2,7 estrelas, Miss Meadows (ou A Justiceira em português) foi o primeiro. A primeira cena do filme já não era novidade para mim, pois é algo circulado pelo TikTok em cortes aleatórios onde os comentários são cheios de "nome?".
Mary Meadows é uma jovem que trabalha como professora substituta para crianças, tem hobbies calmos e tranquilos. Como longas caminhadas pelo bairro, sapateado e jardinagem. Ela vive sozinha, usa roupas bem tradicionais e conversa com a mãe sobre como foi o seu dia. Mas o que ninguém sabe é que ela carrega uma pequena arma na bolsa e atua como vigilante, matando criminosos quando os flagra cometendo atos ilícitos. O xerife local descobre que Mary é a responsável por estas mortes, mas ele não sabe se deve prendê-la ou protegê-la.
O filme balbucia um questionamento sobre moralidade, mas falha em gerar empatia. Mary é a síntese de um arquétipo norte-americano problemático: a combinação de um senso moral raso, valores tradicionais rígidos e o fetiche pelas armas. Sob essa ótica, o filme torna-se quase irônico. Meadows arroga para si o direito divino de decidir quem vive e quem morre, justificando sua ânsia como um mero "subproduto" do meio. No paradigma contemporâneo de culpar a estrutura por todo desvio individual, parece que ninguém mais assume o papel de vilão — tudo é dissolvido na "sociedade".
Desde que nasceu o esquema de culpar a sociedade, ninguém nunca mais foi vilão. Seja para o bem ou para o mal.
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Antes de mais nada, quero deixar claro que não gosto do ator Glen Powell. Eu não sei porquê, mas só não gosto.
Até porque, 99% dessas pessoas não fez nada para o 'coitado' do arquiteto Becket Redfellow (Glen Powell), herdeiro de uma fortuna multibilionária, que está disposto a fazer qualquer coisa para obter o que acredita ser seu por direito, inclusive matar.
Becket é filho da filha deserdada da família Redfellow. Enquanto ele viveu uma vida humilde ao lado da mãe, seus primos e tios aproveitavam a herança construída pelo patriarca. São sete parentes ricaços que estão entre Becket e os bilhões de dólares. O coitado então decide fazer resolver esse problema com as próprias mãos.
Novamente: um filme sobre justiça. Mais ainda: sobre fazer o que acha que é certo.
Eu não sou de defender bilionário, mas a única pessoa alí que realmente expulsou a mãe do Becket foi o avô. O resto ficou em silêncio porque era satisfatório, creio eu, para não desmoralizar as estruturas da família.
Tanto Miss Meadows quanto Becket Redfellow sofrem do mesmo mal: a individualização de problemas estruturais.
Do ponto de vista econômico, Becket não busca justiça social ou a redistribuição da riqueza de sua família, tampouco "vingar" a própria mãe; ele busca a centralização do capital em suas próprias mãos como sendo sua vida por "direito".
É uma visão de mundo onde o sistema econômico não é o problema, mas sim quem detém o controle desse dinheiro. O filme sugere que, se o "merecedor" (o protagonista) tiver o dinheiro, o equilíbrio será restaurado. É a meritocracia da astúcia e da força.
É como ver um cachorro quase pegando um frisbe, mas caindo antes disso. Tipo, Becket, você estava quase entendendo tudo...
Sociologicamente, ambos os personagens representam a falência do Estado e do contrato social. Mary Meadows é o resultado de uma sociedade que desistiu da reabilitação e das instituições judiciárias, abraçando o vigilantismo messiânico.
Quando Mary justifica seus crimes como uma resposta necessária, ela utiliza uma especie própria de determinismo social para eximir-se de qualquer responsabilidade ética individual. O sujeito se sente desconectado das leis coletivas, agindo como juiz e carrasco em uma bolha de moralidade privada.
Para a indústria cinematográfica de Hollywood, é extremamente confortável perpetuar essas histórias. Ao focar em dramas individuais de vingança ou vigilantismo.
É muito mais fácil filmar um herói matando um vilão "mau" do que discutir como as políticas públicas, a desigualdade de renda ou a falta de assistência psiquiátrica criam esses cenários.
Além do mais, essas histórias vendem a ideia de que o indivíduo extraordinário pode (e deve) ignorar as instituições para "consertar" o mundo.
Hollywood transforma a luta de classes e o colapso institucional em entretenimento palatável, onde a solução nunca é a reforma da estrutura, mas sim a vitória de um indivíduo sobre o outro. É o triunfo do "eu" sobre o "nós", embalado como justiça heróica.



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