Escreva.
Escreva. Coloque na página. Preencha o branco da tela como se sua vida dependesse disso. Rasgue seu peito, sangre pelos dedos.
O cheiro de café, o amargor na boca, o aquecimento de uma garganta silenciada. A profusão dos carros, o vento frio que vem da janela.
Uma decisão que não era a principal, o desvio do foco, meu desfoco, meu desfecho. Não sinto cheiro de culpa, tampouco de raiva.
As costas doem com o peso imposto pelo carrasco que, ao olhar o espelho, se depara com os próprios olhos. A mente divaga com as possibilidades gastadas, remendadas, doadas e outorgadas.
O que eu sou para além dessa união de todos e negligência dos mesmos? Parida, amada, deixada. Jovem demais para morrer, velha demais para dar defeito.
É inútil. O movimento que faço e as palavras que invoco nesse momento cansado. Como se fosse uma formiga solitária buscando, com todas as forças, seu ninho já que, de alguma forma se perdeu.
Me perdi? Me perder sugere que há um lugar por aí, uma origem.
Sei que já perdi coisas, já perdi pessoas, emoções e a cor da vida. Como dito, é inútil.
Há alguns breves dias, irei reler e pensar: essa não sou eu. Quem sou eu?
O que sou?
Não é o nome, a idade, a cor, o gênero, o emprego, a função.
Não sou o que amo, não sou o que quero, nem o que detesto. O que sou? O que eu quiser?
E se eu não quiser ser? Tem que ser.
Tem que portar, fingir, atuar.
A solução? Cada um inventa uma de tempos em tempos.
É cíclico. É sísifo.
Quando eu achar a minha, serei feliz. Se eu achar. Até lá….dói e não vai deixar de doer. Não vai deixar de arranhar o peito e prender os cabelos. Não vai me deixar ir. Eterna amante da dor, nunca esposa da felicidade.
É genuíno, mas não é recíproco.

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