Apelidos de Gênero
Esses dias peguei-me atendendo um cliente com um ótimo apelido: Jacaré. E além do apelido, o homem ainda tinha seu espírito animal como foto de perfil. Jacaré é um homem respeitado que está representando uma instituição séria.
Eu poderia debater se é ou não profissional utilizar animais para representar uma pessoa em uma impresa nacional, mas, o Brasil tem consigo suas pecularidades. E, pessoalmente, eu acho que o ambiente de trabalho se leva a sério demais para o que propõe. Você quer me dizer que, se juntar umas 15 pessoas para trabalhar no mesmo lugar, eles agirão como adultos todas as 8h de trabalho? Nós? Que viemos do macaco, um animal infantil por natureza? Eu não acredito.
Em suma, não. Eu não acho antiprofissional um jacaré ser um representante comercial. Além do mais, quantos de nós não conhecemos pessoas-apelido que exercem seriamente sua profissão?
Não vou entrar no mérito dos famosos, porque eles têm uma liberdade artística, e as expectativas impostas em cima deles são diferentes das nossas, pessoas comuns.
É só pegar o celular do seu pai e ver o nome dos contatos. Simples assim.
Em um só scroll, você irá se deparar com um mundo mágico mais pertencente as rodas de jogatina de RPG.
Da minha pesquisa pessoal, encontrei:
- Betão
- Graxa
- Cavalo
- Minhoca
- Batata
- Cabrito
- Calboy
- Digão
- Gaúcho
- Julho
- Mineiro
- Pato
Podemos perceber algumas características que podemos separ por grupos: Alimentício (como o Batata); o grupo de variações do nome original (Betão, Digão); quanto à origem (Gaúcho, Mineiro); os furries (Cavalo, Minhoca, Cabrito, Pato); uns que realmente não sei o que aconteceu... (Graxa, Calboy, Julho).
Mensão honrosa ao Tião Turbina, que não chama nem Tião e nem mexe com turbina.
Parte deles, (e aí somente perguntando ao meu pai quais são), são respectivos ao seu trabalho. Ao que veio ao mundo. O caro Minhoca, por exemplo, deve vender minhocas; o Graxa deve ser mecânico e por aí vai.
Seu apelido, seu "vulgo", ser seu trabalho é algo que deixaria o Tyler de Clube da Luta revoltadíssimo. Entretanto, vou discordar dele por hora. Esses apelidos não são meramente reduções, são lembretes de sua passagem na terra e como sua presença marcou os demais.
Em palavras simples, seu apelido é como a pessoa que te chama te vê, como você é conhecido por aquele grupo específico.
Vamo problematizar?
Homens têm apelidos e são igualmente respeitados e vistos como profissionais e, como é o caso do Jacaré, podem ser representantes de empresas. E as mulheres? Cadê o apelido das mulheres?
A tati, a fê, a gabi, a bia, a alê... Eu não sei o apelido de nenhuma das advogadas com quem tive contato no meu antigo estágio. Pelo contrário, elas se apresentavam com nome e sobrenome.
As apelidadas são respeitadas profissionalmente? Eu sei que, nas costas, as mulheres recebem diversos nomes com base nas narrativas criadas e discipadas pela sociedade; mas e os apelidos normais? Como o caro Betão se tornaria simplesmente Roberta. Onde está a Mineira? Com que trabalharia a Pata?
Eu sei que parece uma indagação fútil e muito da sem sentido, mas não deixa de ser curioso. É quase como se, socialmente, a infantilidade e a futilidade seja permitida apenas à um lado.
Do lado de cá, nem as menores das brincadeiras podem ser feitas.
Não vejo essa coisa dos apelidos como um problema originário, mas como um dos mais diversos resultados da atualidade.
Por aqui, vou continuar procurando as apelidadas, e por mim, darei mais credibilidade e respeito a elas. O que eu quero é igualdade de ser imaturo a todos, é a possibilidade de ser idiota e o amor que tem em ser lembrado pelos outros como um Cabrito.

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