A Frequência do Gosto

Tenho meu Tumblr há dez anos. Uma década habitando as esquinas da internet é, no mínimo, uma experiência de arqueologia digital. Naquela época, o ecossistema era caótico, uma mistura de melancolia estética e descobertas frenéticas.

Recentemente, decidi percorrer meus likes (protegidos sob o cadeado da privacidade, claro) encontrei de tudo: fanarts de fandoms que ainda me assombram, a viuvez inconsolável do Club Penguin, fotos de artistas que o tribunal do cancelamento já sentenciou e os primeiros lampejos de um pensamento progressista que eu ainda estava aprendendo a nomear. Havia também filmes que, pela classificação indicativa, eu certamente não deveria estar assistindo.

No Pinterest, a dinâmica foi parecida. Minhas curtidas antigas foram organizadas em pastas, e uma imagem específica me paralisou: uma foto de Childish Gambino.

Por que, entre bilhões de pixels, a versão "mini" de mim escolheu curtir justamente aquela foto? Não me recordo do contexto, e ela não está mais aqui para me explicar. É curioso porque, hoje, Gambino é presença obrigatória nas minhas playlists; são três ou quatro faixas que não saem do repeat. É como se o meu "eu" do passado tivesse deixado um marcador de página em um livro que eu só terminaria de ler anos depois.


Essa conexão invisível remete à lenda oriental do Akai Ito, o "Fio Vermelho do Destino". Diz-se que os deuses amarram um fio invisível nos tornozelos (ou dedos mindinhos) daqueles que estão destinados a se encontrar. Mas, para além das pessoas, esse fio parece unir almas a ideias, estéticas e obras de arte. O fio pode emaranhar ou esticar, mas nunca se rompe.

Podemos interpretar essas "coincidências" sob a ótica do subconsciente. Ele funciona como um curador silencioso, captando sinais de rádio que nossa consciência ainda não consegue sintonizar. Quando curti aquela foto anos atrás, talvez minha mente já tivesse detectado uma frequência, uma essência que ressoaria com quem eu me tornaria. O gosto não "nasceu" depois; ele apenas aguardava o momento de ser reconhecido.

Um exemplo disso é minha obsessão por Pulp Fiction. Lembro-me de adorar o filme precocemente e, anos mais tarde, me ver fazendo cosplay dos personagens em um evento escolar. Não foi uma mudança de rota, foi uma confirmação. O mundo é imenso, mas as coincidências só nos atravessam quando decidimos (consciente ou inconscientemente) que estamos prontos para ser atingidos por elas.


No fim das contas, a verdade é que somos feitos de ecos. Seja por obra do destino, do acaso ou das camadas profundas do subconsciente, o fato é que não inventamos nossos sentimentos do zero.

Nossos amores e ódios mais profundos vieram antes de nós, moldados por séculos de cultura, encontros e fios vermelhos que se entrelaçam muito antes do nosso primeiro clique. Eles habitam o mundo como entidades à espera de um hospedeiro. E, com a mesma certeza, eles provavelmente irão depois de nós, sobrevivendo em pastas de inspiração, em arquivos digitais e na memória de quem, daqui a dez anos, também decidirá escavar a própria história.


Comentários

Postagens mais visitadas