A Maldição da Múmia (2026), Undertone (2025) e um medo familiar.

Descobri que existe um filme homônimo, A Maldição da Múmia, lançado em 1998. Na sinopse, uma americana retorna à Irlanda esperando descobrir a causa de suas alucinações e desmaios ,sem suspeitar que uma antiga maldição druida está em ação. Com 1h35min, o longa transita entre o terror, o mistério e o erótico independente. Talvez eu dê uma chance eventualmente. Quem sabe?

Mas, o que eu vi de fato foi a versão de 2026, com 2h14min e direção de Lee Cronin. Na sinopse (um tanto econômica): a filha de um jornalista desaparece sem deixar rastros no deserto e, oito anos depois, retorna para a família. O que deveria ser um reencontro alegre, porém, se transforma em um pesadelo.


Antes de mais nada, aviso que Cronin tem um vício sério em split diopter shots, aquele recurso em que alguém em primeiro plano fica com um "cabeção" enquanto algo acontece ao fundo. Mas o verdadeiro castigo do monstro é a promoção do namorado inútil de Midsommar para marido inútil aqui. Se até aquele homem sem expressão consegue papéis novos, eu também consigo conquistar meus sonhos mais doidos.

Além de gore corporal, o filme está cheio de crises de relacionamento e tempestades de areia. O que realmente se salva é a policial; se tivéssemos um filme só dela, seria incrível. O filme é bom? Bem... o filme em si, não. Acredito que meus amigos egiptólogos estejam se revirando em seus respectivos sarcófagos com tantas meias-verdades e preconceitos religiosos.


Hoje não vou focar na técnica ou na história. Vou "viajar na maionese": o demônio aqui é um disruptor familiar. Ele atua como um agente da desconfiança que se espalha como praga. Uma vez em casa, a garota-múmia-demônio começa a semear a discórdia. Como o casamento dos pais já estava abalado, ela foca sua energia nos irmãos.

A irmã mais nova é afetada de forma curiosa: ela é controlada pelas atitudes da mais velha. É um movimento que nem precisa de demônio para acontecer; quando a figura materna falha ou está ausente, o olhar da caçula se volta à primogênita como fonte de inspiração e imitação.

Quanto ao irmão, a múmia o atinge em sua maior fragilidade: a culpa. Sem um modelo de certo ou errado, o garoto se culpa por ter deixado a irmã sem supervisão. Mesmo sendo o mais novo, ele assumiu o papel de protetor e agora projeta sua raiva nos pais, que deveriam ter zelado por ela em vez de esperar que uma criança cuidasse de outra.

Já a avó representa a tradição e, ao meu ver, uma ruptura com os problemas do passado, ou talvez a prova de que precisamos quebrar esses ciclos (antes que gerem outros piores). A escolha da múmia (algo a ser desenterrado e desenrolado para ser compreendido) para falar de drama familiar é, no mínimo, interessante. No fim, A Maldição da Múmia pode ser lido como um filme sobre uma família comum e disfuncional, onde a quebra da estrutura gera um efeito dominó em todos.

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Undertone me deu... medo.

A trama acompanha Evangeline "Evy" Babic, uma jovem criada na fé católica que vive isolada, cuidando de sua mãe em coma. Ao lado de seu amigo Justin, ela apresenta o The Undertone, um podcast de terror focado em relatos sobrenaturais, que Evy encara com ceticismo, enquanto Justin acredita piamente. A rotina muda quando Justin recebe arquivos de áudio anônimos de um casal, Mike e Jessa. Jessa fala enquanto dorme, e Mike registra tudo, esperando provar algo.


Logo nas primeiras gravações, o tema central do filme emerge: a família. No caso de Evy, a maternidade. Enquanto Jessa balbucia canções de ninar, Evy e Justin buscam mensagens subliminares, daquelas que tentávamos encontrar nos discos da Xuxa nos anos 2000.

A tensão escala quando Evy descobre que está grávida de seis semanas. Diante do leito da mãe inconsciente, ela confessa sua incapacidade de assumir esse papel. Ao analisar os áudios ao contrário, a verdade aparece: o nome de um demônio do folclore europeu e mediterrâneo, conhecido por causar abortos e levar mães ao infanticídio por puro ciúme, já que a entidade é infértil. A partir daí, o ambiente doméstico apodrece. Fenômenos estranhos se multiplicam: a mãe se move sozinha, luzes piscam e uma estátua da Virgem Maria, que Evy insiste em esconder, reaparece obsessivamente pela casa.

O filme é desconfortável, para dizer o mínimo. A direção, os cenários e o design de som conspiram para criar uma sensação de asfixia. Me senti querendo ir embora o tempo todo, e isso é um elogio à execução do horror.

O ponto central aqui é a maternidade. Em Undertone, temos uma mãe incapacitada pela doença, cujo papel de cuidado é (horrivelmente) transferido para a filha. Os papéis se invertem: a filha vira mãe da própria mãe. Evy não quer esse fardo e parece não saber como carregá-lo. Seria seu ceticismo uma defesa contra traumas do passado? Não sabemos. Somos jogados nessa realidade crua.


Justin, em minha interpretação, é a figura do "pai semipresente". Aquele que pergunta se está tudo bem, mas nunca está lá quando o caos se instala; está distante emocionalmente e fisicamente (até o fuso horário dele é outro). O pai de Evy é uma ausência completa, e o progenitor do bebê é descartado sem sequer dar as caras. O filme é sobre a solidão feminina no ato de cuidar e fazer as coisas funcionarem por conta própria.

Nesse cenário, o demônio nada mais é que uma representação da depressão pós-parto (ou pré-parto, neste caso) que assola mulheres desamparadas. O adoecimento feminino diante das mazelas da maternidade não é novo, mas aqui ganha contornos folclóricos. Por fim, há a culpa cristã. Evy se sente julgada e abandonada por Deus. O desamparo faz com que ela estenda essa falta de amparo a toda e qualquer experiência, transformando sua casa em um santuário de isolamento. Undertone é sobre como o abandono adoece o corpo e a alma com uma rapidez assustadora.


Ao analisar A Maldição da Múmia (2026) e Undertone, percebemos que o verdadeiro monstro não vem do Egito ou de rituais druidas, mas de dentro das paredes de casa. Ambos os filmes utilizam entidades sobrenaturais como metáforas para o colapso das estruturas domésticas.

Em A Maldição da Múmia, o demônio é o disruptor, aquele que se aproveita de laços já fragilizados para instaurar a desconfiança e o efeito dominó entre irmãos e pais. Já em Undertone, a entidade é o sintoma do isolamento e da exaustão de uma linhagem de mulheres que não encontram suporte. Em ambos os casos, os homens são figuras inócuas ou ausentes (seja o marido de Cronin ou o amigo "distante" de Evy) deixando o peso do conflito (e da sobrevivência) nos ombros femininos.
Sei que, o pai em A Maldição da Múmia se coloca em frente da investigação e se sacrifica pela família o deixando em um tom heróico e necessário. Não serei injusta com o coitado. 

A família é um prato cheio para o terror porque é onde estamos mais vulneráveis. É o lugar onde as expectativas sociais (o dever de cuidar, a fidelidade, a proteção dos irmãos) colidem com a realidade humana do cansaço e do trauma. Se em um filme a "Múmia" representa o que precisa ser desenrolado e compreendido em um drama familiar, no outro, o "Undertone" representa o que é dito nas entrelinhas do silêncio doméstico.

No horror familiar, o susto não vem do escuro, mas do rosto conhecido que, de repente, nos olha com estranheza. O medo não é de morrer, mas de descobrir que aqueles que deveriam nos amar são, na verdade, os agentes da nossa própria ruína.


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